É o cenário da cidade perfeita, como desenhado no magistral poema “Barra do Corda”:
Desperta, ó musa! As pálpebras descerra!
Olha bem alto, sobre as verdes tranças,
Como um sinal de paz e de bonanças,
Alto cruzeiro em cima de uma serra!
É minha terra-berço. É minha terra!
Cisne banhado pelas águas mansas.
Barra do Corda, ninho de esperanças,
Esperanças de amor que amor encerra!
Ó minha terra! Ó rio de águas claras,
De ofir, mimosas pérolas brilhando...
Jóias das jóias, preciosas, raras!...
Barra do Corda, flor de dois regaços...
Loira princesa - as glórias decantando,
Entrelaçada pelos divinos braços!
É a fotografia do sertão paradisíaco e da natureza virgem, como descrito no poema “Cachoeira do Rio Corda” (Do Corda, a cachoeira, efervescente,/ Aos inúbicos sons do nativismo, /Cobre-se do arco-íris do atavismo, /Bordando o chão de espuma alvinitente).
É a concepção do sertanejo heróico e do índio exemplar, como inserto no poema “O Índio Morto” (Ei-lo, tão magro, morto, desprezado,/ Tendo por leito esfarrapada esteira,/ Ele que é tudo, o filho mais sagrado/ Da genuína raça brasileira).
Muito deve a cultura barra-cordense a Olímpio Cruz. Foi ele o literato que, de maneira competente e inspirada, fez a poesia voltar os olhos para Barra do Corda, e, numa perspectiva histórica, estabeleceu as bases de uma abordagem literária seguida por quase todos os escritores de sua geração e das gerações seguintes.
Mais ainda, a importância de Cruz também pode ser percebida em todas as vertentes musicais que vão desde Moisés da Providência (“Hino de Barra do Corda” e “Canção Cordina”), a Galeno Brandes (“Freirinha”), chegando, mais recentemente, a Sérgio Miranda (“Rio Corda” e “Rio Mearim”), entre tantos outros.
Para além de letrista competente (esteve para Moisés da Providência como Vinícius de Moraes para Tom Jobim), o poeta influenciou, decisivamente, diversos artistas a comporem peças cuja temática fosse a crônica barra-cordense. Sua obra alcança inclusive o teatro barra-cordense, no qual já se encenou “Caiuré Imana”.
Foi a partir de Olímpio Cruz que se começou a elaborar, na literatura, na música, no teatro e em outras expressões culturais, uma obra que tivesse alguma correspondência com o rosto e a voz da coletividade ribeirinha, mesopotâmica, assentada por Melo Uchoa entre os rios Corda e Mearim.
Com o poeta teve início, então, um certo ufanismo militante, um positivo bairrismo, que veio a forjar na população em geral (e não apenas nos poucos leitores existentes, tanto antes quanto hoje) o orgulho de ser barra-cordense, o amor incondicional pela terra natal, um saudosismo extremado que dá o atributo de “tradicional” até mesmo a fatos que tenham origem um tanto recente.
É verdade que a paixão de Olímpio Cruz pelos sonetos, a preocupação obsessiva com a forma e a riqueza vocabular, que fizeram dele o maior poeta barra-cordense da segunda metade do século passado, são, sem sombra de dúvida, influência de Maranhão Sobrinho, o primeiro grande poeta da história barra-cordense.
Mas o mérito de Cruz, enquanto "discípulo" de Sobrinho, é que fez algo de novo e instigante, ao seu tempo, e de acordo com suas circunstâncias.
Foi o cantor dos sertões barra-cordenses. Foi o cantor dos índios Guajajaras e Canelas. Traduziu, em sua obra, a alma de um barra-cordense exultante - seguindo uma temática ignorada por Sobrinho, que, glória da nossa terra, nunca escreveu sequer uma linha sobre Barra do Corda.
E aqui não vai nenhuma crítica a Maranhão Sobrinho, pois seu desinteresse pela temática barra-cordense, bem como o interesse profundo de Olímpio Cruz pela cidade, são questões diretamente ligadas à biografia de cada um.
Cruz, como funcionário da Funai, teve a vida diretamente ligada ao trabalho nos grotões, nas selvas, na capoeira, no contato com os índios e os sertanejos da gema, sem contar que ele próprio já era homem oriundo do mato, nascido na fazenda Soledade, em Tuntum, na época interior de Barra do Corda.
Sobrinho, nascido nas proximidades da atual Praça do Fórum, no centro da cidade, foi embora para São Luís logo no início da mocidade, onde veio a ter acesso aos livros da fina flor da poesia européia, identificando-se notadamente com as obras francesas, e ainda passou a vida toda morando fora, vindo a morrer em Manaus.
As preocupações literárias de um e outro, portanto, não podiam ser diferentes do que foram.
(continua na semana que vem)
* Rubem Milhomem - É Poeta e Escritor, barra-cordense, residente em São Luís.