Daí que em “Morro do Calvário” (2000), uma espécie de “livro-manifesto”, propusemos que, relativamente aos autores contemporâneos que tenham Barra do Corda como tema, a “leitura literária” sobre o município sofresse alguma “atualização”.
E o que significa isso?
Que, além de falarmos de seus episódios históricos, seus símbolos, suas festas folclóricas e seus personagens consagrados, também passássemos a abordar suas enormes contradições, suas grandes mazelas, seu cotidiano mais recente.
Que falássemos dos sertões desprezados pelo poder público.
Da Barra do Corda urbana: dos clubes noturnos e das ruas asfaltadas cheias de mototáxis.
Do rio Corda poluído, cujas águas, pelo menos no percurso que abrange o centro da cidade, já não merecem os adjetivos de "puras" e "cristalinas".
Da iminente favelização da periferia, como a que ocorre na Vila Nair, na Altamira.
Dos barra-cordenses e seu jeito de ser, de pensar, de verbalizar, de se comportar, de se divertir, de viver.
Que investigássemos literariamente o que é, afinal, Barra do Corda, essa princesa do sertão imersa numa valsa sertaneja idílica (no modelo adotado por Olímpio Cruz) e que ora desafia o mundo globalizado, ora a ele se adapta, sem contudo, aparentemente, perder a identidade.
Que investigássemos literariamente quem são, afinal, os barra-cordenses, e por que são como são.
Trata-se de uma abordagem que havíamos iniciado, na verdade, no livro “Danças na Tribo” (1993), onde já se ensaiava a idéia de retratar o cotidiano barra-cordense mais imediato, como no poema “A Negrinha do Morro Altamira”:
lá vai a negrinha subindo a ladeira
com uma lata-d'água na cabeça
pés no barro
quebra catarro
sobe puaca sobe puaca
coisas da barra coisas da barra
é um sobe ladeira
é um desce ladeira
canseira
canseira
(...)
porque tudo continua
porque nada pára
e é imperativo que se suba a ladeira
por mais altaneira!
por mais altaneira!
aquela negrinha
é mesmo cordina
cordina
como é que ela não despenca lá de cima
de lugar mais vertical?
ah, em noite de lua
o que ela quer mesmo
é sentar na beirinha do precipício
extasiada
de ver como nesse momento
a cidade pára
para vê-la
para vê-la que princesa!
que beleza!
que beleza!
Na poesia de Olímpio Cruz, Barra do Corda é uma princesa loura, de pele suave, olhos azuis e beleza ímpar (aliás, a estampa de dona Maria Ferreira Cruz, a “Maria Gato”, esposa do poeta, refletia exatamente isso aí tudo, e mais um pouco).
Para nós (e isso não significa que estejamos certo), não há mulher que represente melhor a figura feminina da cidade do que a gloriosa cabrocha sertaneja de cabelo preto (de preferência cheio de grampos ou elegantemente penteados em rodilha), de pele curtida pelo sol, de olhos castanhos e beleza comum, mas nem por isso menos interessante.
Mas é preciso que se deixe bem claro que a poesia que se tentou desenvolver a partir de “Danças na Tribo”, e posteriormente em “Morro do Calvário”, não veio renegar a obra poética de Olímpio Cruz e seus seguidores.
Pelo contrário.
O que se pretendeu foi, partindo da idéia olimpiana de retratar a Barra, realizar essa abordagem literária sob um enfoque mais radical, pois ainda não estavam nos livros o sertanejo conflituoso e o índio aculturado, os sertões cheios de antenas parabólicas e a cidade economicamente atrasada, os rios poluídos.
Tentou-se pegar a idéia que teve Cruz, de cantar a Barra, e elevá-la à última potência, mas sob outro ângulo, o da “crítica social”.
Mas é possível, ao mesmo tempo, fazer poesia e crítica social?
A questão, bastante polêmica, será comentada com mais calma na coluna da semana que vem.
Mas por ora adiantamos que foi a professora Delta Martins quem melhor entendeu a nossa idéia, conforme o texto de sua autoria publicado na coletânea “Cânticos & Louvores a Barra do Corda” (Academia Barra-Cordense de Letras, 2007, editora Ser, Brasília):
“A Barra é, ao mesmo tempo, objeto de desejo e demanda de amor. O que a Barra mais deseja, mais invoca e mais provoca é o desejo do barra-cordense, em especial daqueles que a cantam. É no contexto do desejo que ela se faz o mito e a mística dos seus cantores.
Amante de múltiplos amores, ela dispensa apegos e não impõe estilos ou padrões – quanto mais variados e quanto mais universais, mais ela se deixa apreender e compreender.
A diáspora do barra-cordense – essa gente caminhante e peregrina - não a perturba. Pode-se mesmo supor que ela incita à dispersão. Vaidosa, a Barra ama ser lembrada Brasil adentro e mundo afora. E, para tanto, ela se metamorfoseia incessantemente.
Para uns, ‘princesa loura, de pele suave, olhos azuis e beleza ímpar’. Para outros, ‘gloriosa cabrocha sertaneja de cabelo preto (de preferência cheio de grampos ou elegantemente penteados), de pele curtida de sol, de olhos castanhos e beleza comum’.
Para estes e outros mais, seja musa, seja cascalho, ela é a Barra das nossas lembranças e das nossas dores; das nossas brigas e dos nossos amores; das nossas alegrias e das nossas tristezas; dos nossos sonhos e da nossa saudade.
Mesmo as falas que contam as mazelas e as contradições da ‘entidade’ Barra parecem saídas das lentes do Sebastião Salgado. Beleza pura, que transcende a miséria e o lixo.”
A conclusão da professora Delta Martins, contida no último parágrafo acima, tem correspondência direta com a célebre frase de Picasso, autor do quadro “Guernica”, obra-prima que trata dos horrores decorrentes do bombardeio da cidade espanhola pelos nazistas: “A arte é uma ‘mentira’ que fala seriamente da verdade”.
(continua na próxima semana)
NOTA: Na coluna anterior dissemos que Maranhão Sobrinho nasceu na praça do Fórum, no Centro. Ocorre que a sede do Fórum agora fica na Vila Canadá. Então, corrigindo: o poeta nasceu na antiga praça São José, atual praça Maranhão Sobrinho, no Centro, onde está localizada a igreja principal da Assembléia de Deus.