Daí o presente esclarecimento: quando nos referimos à Barra do Corda “real”, estávamos querendo dizer que, embora a poesia não se confunda com o “real” (mas uma vez tendo nesse ponto de partida), deve também assumir uma abordagem de crítica social, e não apenas de pura exaltação (modelo poético consagrado por Olímpio Cruz, seguido até hoje por todos).
Ressaltando que o verbo “deve”, aí, é “auto-impositivo”, ou seja, apenas sinaliza a direção adotada predominantemente por Rubem Milhomem nos poemas que falam sobre Barra do Corda. Quanto aos demais poetas da atualidade, que escrevam sobre o município, evidentemente fizemos o mero “convite” à crítica social. Em nenhum momento tivemos a pretensão de “patrulhar” o estilo, o padrão, a linha adotada por este ou aquele autor.
Não se trata de adotar uma poesia engajada, panfletária, partidária (ao estilo dos antigos poetas socialistas – “a revolução pela arte”), mas de prestigiar uma poesia que se recusa a fechar os olhos para a realidade, a se voltar apenas para as crises existenciais, para as dores, angústias ou alegrias íntimas, para aquilo que não vai além do umbigo do autor.
Não é que a poesia deva estar a serviço da política em sentido estrito (entendida como conquista e manutenção do poder), mas é fato que o silêncio do artista, sobretudo em contexto de grave crise social, também reflete um posicionamento político – a da omissão.
Nesse sentido é que, já no livro “Danças na Tribo” (1993), dizíamos, entre a ironia e irreverência, que a nossa poesia sobe a ladeira da Altamira, desce de bóia o rio Corda, enfrenta fila no banco e também fica indignada com o preço do cigarro.
Ao contrário do que sugere a caricatura, o poeta não é apenas um sujeito sonhador que vive nas nuvens, tocando a arpa dourada segundo a partitura da simples realização estética (“a arte pela arte”); o mundo em que ele vive também é atingido pela decadência moral, política e econômica que assola o dia-a-dia.
No nosso entendimento (ressalvando que cabe a cada um decidir sobre o que quer escrever, de acordo com seu ponto de vista), o poeta não pode ser alheio ao seu tempo e ao seu meio, assim como não foi, para ficar num exemplo, Castro Alves com seu poema “Navio Negreiro” (“Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?! / Ó mar, por que não apagas / Co'a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão?... / Astros! noites! tempestades! / Rolai das imensidades! / Varrei os mares, tufão!”).
Ficamos com o filósofo francês Jacques Rancière, segundo o qual “a arte faz política antes que os artistas a façam”, quando determina “relações espaço-temporais, formas de visibilidade, relações entre as formas sensíveis e seus modos de representação”.
Reconheça-se, contudo, que a questão é bastante tormentosa – há quem tema, com muita razão, que o enfoque da crítica social possa vir a se sobrepor à obra poética, empobrecendo-a.
Mas, vá lá, tudo na vida pode ser levado para um extremo ou para outro. O risco da degeneração é inerente a todas as idéias, que, nem por isso, devem ser fulminadas no nascedouro.
Exemplificando, o poema “Morro do Calvário”, que deu título ao livro, é uma síntese da nossa idéia central de abordagem poética:
barra do corda ao pôr-do-sol
do alto do morro do calvário
a tresidela é cinza
o sítio é verde
o centro é a história
a altamira
ergue favelas e condomínios de luxo
com vista para o grande vale
que se delineia no sertão
o velho e o novo
compõem a paisagem
que exsurge da contemplação
a carroça do peão disputa espaço
com o carro importado do doutor
a canoa do ribeirinho duela
com o jet-ski do playboy
a lavadeira leva na cabeça a trouxa de roupa
da madame que exibe o telefone celular na cintura
a moça da periferia manda recado
pelo programa de rádio
ao rapaz da elite que namora,
via e-mail, a internauta de são luís
barra do corda ao pôr-do-sol
5º 30'
de latitude meridional
45º 16'
de longitude ocidental
por sobre as casas e as antenas parabólicas
a brisa preguiçosa soprada pela serra
evoca a doçura dos antigos poemas
e o discurso que denuncia o estorvo
no ar, o cheiro dos rios
no ar, o cheiro do povo
no ar, o vôo rasante do avião
particular
do senhor deputado
no clima tropical continental
trinta graus centígrados
tornam densas as cores do retrato
No mesmo sentido, o poema “Danças na Tribo”, uma remissão ao livro anterior:
na aldeia
índio velho
e índia velha
dançam
na festa do moqueado
e na festa do tepialkuâ
na cidade
índio novo
e índia nova
dançam
rap made in usa
e drum'n'bass de procedência alemã
(continua na próxima semana)