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Barra do Corda

Blog do Colunista

Ricardo Noblat 





Nosso provedor

 

 

Barra do Corda segundo a poesia (terceira parte)

Daí o presente esclarecimento: quando nos referimos à Barra do Corda “real”, estávamos querendo dizer que, embora a poesia não se confunda com o “real” (mas uma vez tendo nesse ponto de partida), deve também assumir uma abordagem de crítica social, e não apenas de pura exaltação (modelo poético consagrado por Olímpio Cruz, seguido até hoje por todos).



 



Ressaltando que o verbo “deve”, aí, é “auto-impositivo”, ou seja, apenas sinaliza a direção adotada predominantemente por Rubem Milhomem nos poemas que falam sobre Barra do Corda. Quanto aos demais poetas da atualidade, que escrevam sobre o município, evidentemente fizemos o mero “convite” à crítica social. Em nenhum momento tivemos a pretensão de “patrulhar” o estilo, o padrão, a linha adotada por este ou aquele autor.



 



Não se trata de adotar uma poesia engajada, panfletária, partidária (ao estilo dos antigos poetas socialistas – “a revolução pela arte”), mas de prestigiar uma poesia que se recusa a fechar os olhos para a realidade, a se voltar apenas para as crises existenciais, para as dores, angústias ou alegrias íntimas, para aquilo que não vai além do umbigo do autor.



 



Não é que a poesia deva estar a serviço da política em sentido estrito (entendida como conquista e manutenção do poder), mas é fato que o silêncio do artista, sobretudo em contexto de grave crise social, também reflete um posicionamento político – a da omissão.



 



Nesse sentido é que, já no livro “Danças na Tribo” (1993), dizíamos, entre a ironia e irreverência, que a nossa poesia sobe a ladeira da Altamira, desce de bóia o rio Corda, enfrenta fila no banco e também fica indignada com o preço do cigarro.  



 



Ao contrário do que sugere a caricatura, o poeta não é apenas um sujeito sonhador que vive nas nuvens, tocando a arpa dourada segundo a partitura da simples realização estética (“a arte pela arte”); o mundo em que ele vive também é atingido pela decadência moral, política e econômica que assola o dia-a-dia.



 



No nosso entendimento (ressalvando que cabe a cada um decidir sobre o que quer escrever, de acordo com seu ponto de vista), o poeta não pode ser alheio ao seu tempo e ao seu meio, assim como não foi, para ficar num exemplo, Castro Alves com seu poema “Navio Negreiro” (“Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?!   / Ó mar, por que não apagas / Co'a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão?... / Astros! noites! tempestades! / Rolai das imensidades! / Varrei os mares, tufão!”).



 



Ficamos com o filósofo francês Jacques Rancière, segundo o qual “a arte faz política antes que os artistas a façam”, quando determina “relações espaço-temporais, formas de visibilidade, relações entre as formas sensíveis e seus modos de representação”.



 



Reconheça-se, contudo, que a questão é bastante tormentosa – há quem tema, com muita razão, que o enfoque da crítica social possa vir a se sobrepor à obra poética, empobrecendo-a.



 



Mas, vá lá, tudo na vida pode ser levado para um extremo ou para outro. O risco da degeneração é inerente a todas as idéias, que, nem por isso, devem ser fulminadas no nascedouro.



 



Exemplificando, o poema “Morro do Calvário”, que deu título ao livro, é uma síntese da nossa idéia central de abordagem poética:



 



barra do corda ao pôr-do-sol



 



do alto do morro do calvário



a tresidela é cinza



o sítio é verde



o centro é a história



 



a altamira



ergue favelas e condomínios de luxo



com vista para o grande vale



que se delineia no sertão



 



o velho e o novo



compõem a paisagem



que exsurge da contemplação



 



a carroça do peão disputa espaço



com o carro importado do doutor



 



a canoa do ribeirinho duela



com o jet-ski do playboy



 



a lavadeira leva na cabeça a trouxa de roupa



da madame que exibe o telefone celular na cintura



 



a moça da periferia manda recado



pelo programa de rádio



ao rapaz da elite que namora,



via e-mail, a internauta de são luís



 



barra do corda ao pôr-do-sol



 



  30'



de latitude meridional



45º  16'



de longitude ocidental



 



por sobre as casas e as antenas parabólicas



a brisa preguiçosa soprada pela serra



evoca a doçura dos antigos poemas



e o discurso que denuncia o estorvo



 



no ar, o cheiro dos rios



no ar, o cheiro do povo



 



no ar, o vôo rasante do avião



particular



do senhor deputado



 



no clima tropical continental



trinta graus centígrados



tornam densas as cores do retrato



 



No mesmo sentido, o poema “Danças na Tribo”, uma remissão ao livro anterior:



 



na aldeia



índio velho



e índia velha



dançam



na festa do moqueado



e na festa do tepialkuâ



 



na cidade



índio novo



e índia nova



dançam



rap made in usa



e drum'n'bass de procedência alemã



 



 



(continua na próxima semana)

05 Oct 2007 por Marcus Vinicius
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