Rosas no céu, rosas nas cercas, rosas
nos teus ombros e rosas no teu rosto,
rosas em tudo, e há chagas veludosas
de rosas cor de rosa no sol-posto...
Florescem rosas de ais, maravilhosas
nas róseas fontes, rosas no recosto
dos róseos montes se debruçam! Rosas
em abril, em maio, em junho, em julho, em agosto!
Se há noivados, há rosas nas redomas
dos altares e há rosas invisíveis
difundindo, no azul, róseos aromas!
Se morre um anjo, às brancas nebulosas
leva, entre as mãos, rosas marcessíveis,
rosas, fechado num caixão de rosas...
Vocês aí sabem que a coluna tem especial prazer em desafiar certos “consensos” estabelecidos, de mostrar como, décadas após décadas, a Barra vai consagrando algumas “verdades” que não encontraram correspondência nos fatos reais.
Pois bem.
Uma afirmação categórica vigente há tempos dá conta de que Maranhão Sobrinho teria sido o maior poeta da nossa história. E é impressionante como as pessoas repetem isso, desde a escola até as rodas de bares, sem nunca terem lido a obra dele.
A coluna leu. E pode assegurar que os livros do poeta (“Vitórias Régias”, “Estatuetas” e “Papéis Velhos”) têm mesmo grande qualidade, Mas, vá lá, é no mínimo discutível colocá-lo acima de Olímpio Cruz. Quando muito, pode-se dizer que os dois, para a história e a literatura de Barra do Corda, estão ali ombro a ombro.
Querem ver?
O principal argumento que se invoca para defender a suposta “superioridade” de Sobrinho seria a surpreendente regularidade quanto à qualidade de seus poemas, quase todos em nível de excelência, enquanto a obra de Cruz alternaria momentos de genialidade e recaídas em lugares-comuns.
Ocorre que, sendo Sobrinho um sujeito excessivamente boêmio (dele é a frase: - “E se alguma coisa te persegue, bebe!”), inconstante e imprevisível (o caderno que continha suas primeiras poesias perdeu-se quando o autor, num ataque de fúria - ressaca braba? -, jogou-o dentro de um poço), e mais preocupado com seus permanentes problemas financeiros do que com sua carreira literária (a ponto de boas almas o embarcarem praticamente à força, de São Luís para Manaus, na esperança, vã, de que viesse a tomar algum jeito na vida), os três livros de sua autoria acabaram se tornando, por assim dizer, espécies de “coletâneas” (involutariamente, claro), cuja publicação foi incentivada pelos amigos e admiradores, os quais, além do material obtido diretamente com o poeta, tiveram que se valer de escritos deixados de maneira displicente em casa de conhecidos, pelas mesas de bares, pelos balcões de mercados, em redações de jornais etc.
Resumindo: a obra publicada de Sobrinho reúne apenas “o melhor do melhor”, não exatamente contemporâneo ao tempo das respectivas edições.
Portanto, não chegou até nós o “lado B” do poeta, a parte “menor” de sua obra, as composições “menos expressivas”, que certamente existiram, já que, na literatura, assim como em qualquer atividade humana, ninguém nasce pronto nem funciona com a regularidade de um relógio.
Assim, fica fácil, não é não?
Todo poeta é capaz de, num mesmo livro, escrever pérolas e bobagens. Há obra, mesmo de gente inatacável como Drummond, por exemplo, que não dá para ler de ponta a ponta, de tanta chatice que se encontra perdida pelo caminho (vocês já leram os denominados “poemas eróticos” dele, publicados após sua morte? tentem...).
E isso é absolutamente normal. Ora, se Drummond tivesse publicado na vida apenas “coletâneas” de sua produção, dando-nos a conhecer apenas o “creme do creme”, não teria sido o melhor poeta brasileiro, mas sim de toda a língua portuguesa, ao lado de Fernando Pessoa.
Evidentemente, não se pretende aqui, de maneira alguma, desmerecer a obra de Sobrinho, diminui-la ou atacá-la (é uma grande alegria tê-lo como poeta barra-cordense), mas apenas contextualizá-la.
Ora, o grande incômodo na poesia de Sobrinho está justamente em que sua produção publicada seja inacreditavelmente linear, ou seja, que de um livro para outro não se possa perceber uma evolução, um crescimento, um amadurecimento, um aprendizado poético. No terceiro livro o poeta revela-se igual, rigorosamente igual, àquele do primeiro livro, o que é simplesmente impossível de acontecer com qualquer autor, seja lá quem for.
Resultado: quem quiser conhecer a poesia de Sobrinho, em toda sua complexidade e extensão, basta ler um livro e terá lido todos. Ao contrário, quem quiser ler os três livros, um a um, deve estar preparado para enfrentar uma repetição sem fim, vide os poemas que falam da morte ou da prática de magia negra (sim, nosso querido poeta, como diria FHC, era um “cartesiano com pintada de candomblé”).
A bibliografia de Olímpio Cruz, assim como a de Sobrinho, tem alta qualidade. Mas no caso de Cruz, a obra literária é mais vasta, mais eclética, espelha passo a passo o sucesso e o insucesso na longevidade do autor (desde a juventude até o outono dos mais de oitenta anos), enfim, oferece um quadro completo, cheio de prós e contras, cuja apreensão e compreensão, de maneira segura, são quase inatingíveis no caso de Sobrinho.
Quando se considera a relação do poeta com o público e com a crítica, tem-se que Cruz foi o único poeta barra-cordense que, em nosso município, gozou das glórias e dos dissabores literários ainda em vida. Foi ele a nossa primeira celebridade cultural, querido e cultuado por onde quer que fosse, mas também sujeito a muitos senões, aqui e ali. Esteve, em seu próprio tempo, exposto ao sol, ao luar e à chuva.
Assim, fica difícil, não é não?
Concluindo: ao longo do tempo, foi menos trabalhoso para os barra-cordenses detectar as eventuais falhas de Cruz porque ele sempre esteve mais próximo do humano. Já Sobrinho, em torno do qual se foi formando uma unanimidade duvidosa, ficou para mito, e, como tal, vem, em nossa terra, gozando da imunidade de quaisquer tipos de objeções.
Haverá quem diga que Sobrinho tem sua obra estudada em nível nacional, inclusive por gente de universidade que cogita tentar registrá-lo nos livros de literatura brasileira (ouvimos falar disso há mais de quinze anos e a história nunca vai para frente, uma pena), enquanto Cruz seria um poeta “regional”, seja lá o que isso signifique (como diz Fernando Braga, citando seus autores prediletos, “provincial é o provinciano que se universaliza”).
Porém, se Sobrinho tende a alcançar a glória do panteão nacional, não é menos importante para nossa história e nossa literatura a obra de Cruz, considerando-se que foi ele quem desenhou o “rosto cultural” na nossa terra e abriu o caminho para que nascesse mais de uma geração de poetas e escritores, o que o torna muitíssimo mais influente em nosso meio, em todos os quadrantes que se possa investigar.
Na nossa opinião (ressalvando que a questão é para lá de polêmica, não somos a última palavra sobre o assunto, não somos crítico literário, mas mero “comentarista” que joga o tema para o debate) é a de que, tratando-se de Maranhão Sobrinho e de Olímpio Cruz, um não é melhor ou pior que outro, um não é maior ou menor do que o outros, ambos têm a mesma importância para a poesia e para a história Barra do Corda.
(continua na próxima semana)