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Ricardo Noblat 





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Barra do Corda segundo a poesia (quinta parte)


Para que vocês entendam por que gosto da obra de Luciana Martins (parâmetro subjetivo), e por que a considero relevante para nossa literatura (parâmetro objetivo), inicialmente é preciso que compreendam qual é a minha principal objeção relativamente ao atual panorama cultural barra-cordense (ressaltando, mais uma vez, que não sou crítico literário, mas apenas comentarista que coloca no papel suas impressões de escritor bissexto e, sobretudo, de leitor honesto).



Pois bem.



Vocês sabem que, neste início do século XXI, Barra do Corda deve ter uns 450 “poetas”. E as aspas, aí, dizem muita coisa. Há muita gente escrevendo, é verdade, mas é preciso que se diga que, entre os variados nomes que se apresentam, há muito pouca gente fazendo a poesia sem aspas, aquela que tenha condições mínimas de ser considerada como tal.



E não estou falando aqui da suposta “poesia medíocre”, isso, para mim, não existe, toda poesia tem algum valor, basta um pouco de esforço para perceber, levando em conta, evidentemente, que a leitura não é só texto, mas contexto. Estou me referindo precisamente à (como dizer?) “não poesia”.



É difícil definir o que seja poesia. Mas é muito fácil perceber.



Tentando simplificar algo extremamente complexo (para desespero do querido poeta Mauro Miranda, que tem um princípio de infarto toda vez que faço isso), cita-se o exemplo clássico da bula de remédio, que é uma peça narrativo-explicativa de fria linguagem técnico-científica (“não poesia”), mas que pode ganhar uma alma poética, se aproveitada por um compositor talentoso como letra de uma música experimental (tudo nesta vida é possível e, aliás, consta que Madonna já fez isso).



Resumindo: a poesia tem que ter alma; a poesia, no mínimo, tem que sensibilizar.



O que não significa exigir que seja necessariamente doce, derramada, melodiosa, cantante, cheia de imagens coloridas, com mensagens edificantes, palavras otimistas etc. Se ela puder bagunçar um pouco a nossa vida, dar um tapa na nossa cara, fazer com que a gente duvide, ao menos por um segundo, de todas as nossas certezas, melhor ainda. E se não estiver destinada a fazer pensar, que pelo menos nos dê algum prazer de estar diante de algo interessante, belo ou feio, certo ou errado, mas que desperte.



Juro que já li um “poema” de autor barra-cordense que era uma legítima bula de remédio (as palavras a seguir foram substituídas, para evitar identificação e constrangimento): “Rio. Terra. Homem. Fim.”



Como?



Quem quiser dizer que isso aí é um texto poético, esteja à vontade, pode tentar, com alguma imaginação se vai longe. Mas, quanto a mim, vou ser mesmo drástico (todo Milhomem é peremptório, embora não deva): queridos, o caso acima não é de hermetismo, não é de originalidade, não é de genialidade, é de falta do que dizer mesmo.



Veja-se que a minha implicância não é quanto ao tema, ao estilo, à forma, à mensagem em si, mas quanto à total esterilidade poética.



Wolney Milhomem foi o mais difícil dos poetas barra-cordenses, tinha por hábito utilizar palavras secas, versos rápidos, vocabulário erudito, temática profundamente filosófica, finalizações absolutamente inusitadas, poemas que alternavam quebras abruptas de sentido e seqüências esplendorosamente harmoniosas. Mas isso não o impediu de vir a integrar, ao lado de Maranhão Sobrinho e Olímpio Cruz, a Santíssima Trindade da nossa literatura.



João Cabral de Mello Neto foi outro poeta de texto árido. Morreu como um dos maiores de sua geração.



É certo que o texto não é apenas de quem escreve - é completado, modificado, construído também pelo leitor. Mas a poesia não chega a ser equivalente a um quadro no qual se pinta uma tela toda de preto, assinala-se um ponto branco no meio, e se deixa aos críticos especializados, quiçá às cartomantes ou ao Oráculo de Delfos, a tarefa de inventar um discurso que explique o que vai nos sonhos, nos delírios, nas concepções, na formação artística, na história de vida, na biografia do autor.



E aqui, parágrafos e parágrafos depois (ufa!) chegamos finalmente à querida Luciana Martins, poeta sem aspas, dona de uma poesia sem aspas, que tem alma e sensibiliza.



Ela, que já admitiu em entrevista ser de uma “subjetividade extremada” (li na internet, não lembro onde, corram ao Google), consegue, pela poesia, transformar seu íntimo em universal.



Em síntese, a obra poética de Luciana Martins, assim como a música de Marisa Monte, é muito “universo ao meu redor” e muito “infinito particular”.



Seu tema, por excelência, são os assuntos do coração.



Em seus livros, ela é uma moça romântica na janela à espera de um príncipe; mas também é uma mulher decidida que deixa a passividade de lado e rouba o beijo do cavalheiro.



É uma menina capaz de expectativas ingênuas em relação ao mundo; mas também é uma senhora cética conhecedora de toda a crueldade da vida.



É uma noviça de pensamentos angelicais; mas também é uma pagã dada a inesperadas heresias.



É gata manhosa no amor; mas também leoa feroz no desamor.



É contida; é atrevida.



É casta; é tarada.



Enfim, é humana, escancara as virtudes e vícios que não são apenas dela, mas de todos.



Suas alegrias e frustrações existenciais nos fazem refletir sobre as maravilhas e as misérias, a razão e a emoção, a linha cheia de curvas que é o nosso caminho, a aparente falta de sentido das coisas e a dúvida que faz todo sentido.



Mas não é só.



No seu último livro, “Espetáculo das Sensações Alheias”, que os amigos e admiradores, brincando, logo apelidaram de “Espetáculo das Sensações Próprias” (lembram do assumido “subjetivismo extremado”? pois é...), Luciana Martins, já em avançada caminhada rumo à maturidade poética, resolveu nos brindar com alguns poemas que falam diretamente de Barra do Corda.



Mas essa já é outra história que conto na semana que vem, queridos, deixando vocês, por enquanto, com água na boca.



Até lá.

05 Oct 2007 por Marcus Vinicius
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