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EM PETIÇÃO DE MISÉRIA
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Quem chega a São Luís tem a nítida impressão de se encontrar num imenso teatro onde se representassem cenas da Metamorfose, criadas por Ovídio para descrever o começo do mundo. Não, evidentemente, porque aqui alguém esteja criando algo ou juntando as coisas não bem juntas – como disse o poeta. É que há o caos generalizado e cabal. Tudo parece entregue ao Deus-dará. É como se inexistissem governo, poder público, administração.
Ninguém mais pode ir às ruas sem sofrer o mais atroz desconforto, quer seja em razão do pandemônio, da absoluta anarquia reinante no trânsito, ou pela arruinação em que se acham as vias públicas, as calçadas, as praças, os postes, tudo enfim. A cidade praticamente está fazendo correr uma triste petição de miséria entre seus condoídos habitantes que, entregues à própria sorte, sentem-se desvalidos para qualquer ação.
A nossa Capital está metida em enorme e descomunal buraco, coberta de lama e esgotos. Decerto, as chuvas a têm castigado bastante. Mas isso não constitui novidade. Aqui sempre convivemos bem com os rigores de estações de chuvas copiosas sem que atingíssemos o tão elevado nível de degradação da estrutura física da cidade. Ao contrário do que hoje ocorre, não faz muito os moradores de São Luís costumávamos bendizer e agradecer às chuvaradas que lavavam as nossas ruas, deixando-as naturalmente higienizadas. Mas, então, as obras públicas de urbanização e saneamento ambiental eram construídas segundo regras e normas técnicas de engenharia adequadas ao clima e à topografia cidade.
Ao contrário, hoje os governos inauguram festivamente novas ruas e avenidas aparentemente perfeitas. Passados poucos meses, mal acabaram de troar os foguetes, os defeitos aparecem: meios-fios desalinham, sarjetas acumulam águas servidas, o asfalto encalomba, racha, descola da base, buracos surgem e viram crateras, as calçadas, raramente construídas no mesmo passo das ruas e avenidas, também logo ficam intransitáveis. Ao fim de tudo culpa-se o tempo, o inverno, a chuva.
Ora, todo mundo ainda se lembra das promessas dos candidatos à prefeitura de São Luís e sabe que no mínimo 80% delas eram inexeqüíveis, constituíam mero engodo para pescar eleitores nas águas turvas do clima de mistificação próprio dos períodos eleitorais. Mas o atual prefeito já está no cargo por cerca de seis meses e até agora não disse o que veio fazer à frente da municipalidade. A não ser que algo esteja sendo feito de modo oculto, em ações invisíveis e com resultados imateriais.
Evidentemente, em tão pouco tempo, não é se esperar que a prefeitura haja distribuído a todo idoso de São Luís e a cada aluno das escolas municipais os computadores prometidos. Nem que alimentos baratos estejam sendo postos à disposição do povo, como anunciado em campanha.
Também não é justo ir à Avenida Litorânea com o propósito acompanhar as obras de sua ampliação, nem as das novas avenidas e viadutos que seriam imediatamente construídos, para desafogarem o tráfego. Mas é de se exigir que pelo menos ruas e avenidas, no centro como no subúrbio, sejam mantidas em condições de uso normal e que haja o mínimo de ordem e disciplina no absurdamente caótico transito de veículos na cidade. Ou será demais?
* Joaquim Itapary - Jornalista, Escritor, Advogado, membro da Academia Maranhense deLetras e ex-ministro da Cultura, residente em São Luís-Ma. jitapary@uol.com.br
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