Brasília, 31 de outubro - Na reta final da campanha presidencial dos Estados Unidos, o nível de irritabilidade dos simpatizantes dos candidatos John McCain (Republicano) e Barack Obama (Democrata) segue numa escalada impressionante. O grau de belicosidade tornou-se mais intenso nos últimos dias. Há, claro, espaço para o humor. Como este vídeo acima, em que os dois candidatos trocam as idéias pelos impulsos corporais numa pista de dança. É, obviamente, uma montagem. Mas, vale registrar, mostra o grau de interesse e participação da sociedade americana na política.
Os sinais de mudanças são visíveis. Há uma expectativa quanto à alteração radical no estado geral das coisas nos Estados Unidos. Amigos e conhecidos que estão e estiveram no grande irmão do norte, nesses últimos dias, relatam que o clima é energizante. A América se aproxima daqueles momentos de inflexão que ocorrem poucas vezes na história política e social. A crise financeira só reforça essa ansiedade pelo que virá.
Obama está à frente nas pesquisas - uma diferença que oscila entre sete e 11 pontos, segundo o New York Times. Por conta disso, os conservadores estão jogando com artilharia pesada. São cada vez mais insistentes os ataques ao candidato democrata. Na mais recente saraivada de impropriedades, McCain acusou Obama de ser amigo de palestinos, terroristas e comunistas.
O desespero dos neocons ganhou ares de guerra santa. Vale tudo para detonar o adversário. Enquanto isso, Obama continua galgando apoios - o explícito do ex-presidente Bill Clinton, que subiu em palanque na Flórida e pediu o voto ao adversário da mulher nas prévias do partido, veio em boa hora - e angariando mais e mais simpatias. Numa decisão ousada, na noite de quarta-feira, exibiu em sete emissoras de televisão americana um filme de propaganda política de meia hora. Custou a bagatela de US$ 5 milhões.
O comercial é show de bola. Uma mistura de documentário com reportagem em que o apresentador e âncora é ninguém menos que o próprio Obama. O produtor foi Davis Guggenheim, que já dirigiu episódios de séries televisivas como “24″ e “ER” e ajudou Al Gore a formatar o filme “Uma Verdade Inconveniente”, lançado em 2006, um alerta para os efeitos do aquecimento global que ganhou o Oscar de melhor documentário.
Esse tipo de propaganda é uma iniciativa inédita em campanhas eleitorais americanas. Meia hora é muito tempo. Em televisão, uma eternidade. Mas o filme conquistou a audiência de 22% dos americanos, segundo dados publicados nesta sexta-feira pela imprensa. Apenas no You Tube, nesses dois dias de veiculação, foram 1,3 milhão de exibições. Certamente será imitado em campanhas eleitorais - inclusive aqui na terrinha - nos próximos anos. Um caso para estudo em cursos de ciência política e comunicação social.
A mensagem do filme é de esperança. No mini-documentário - intitulado “American stories, american solutions”, que você pode ver aqui - Obama surge como âncora - num cenário clean e modesto, com a bandeira americana à direta do vídeo, para contar histórias de pessoas comuns - o americano médio da classe trabalhadora - e suas dificuldades. Ele injeta doses de otimismo, numa mensagem clara com voz contida, na medida certa.
O candidato apresentou ao público a mulher, Michelle Obama, as filhas, fotos da família - o pai que nasceu no continente africano, a mãe do Kansas. Mostrou ainda como mulheres, idosos e pais de família estão tocando suas vidas. Tratou de esmiuçar suas idéias para a saúde pública, como recolocar a economia nos trilhos, a necessidade de alterar as políticas públicas de educação e reforçou suas críticas à presença militar no Oriente Médio.
“Nós vimos nos últimos oito anos como as decisões de um presidente podem ter um profundo efeito no curso da história e nas vidas dos americanos. Mas os maiores problemas do nosso país são anteriores a isso. Falamos dos mesmos problemas há décadas e nada é feito para resolvê-los”, disse Obama, com voz segura e pausada, na abertura do programa. Nenhuma palavra sobre o adversário. Nada sobre John McCain. Nenhuma alfinetada, nem mesmo o tom piegas que geralmente é visto nesse tipo de propaganda política.
“Em todos os lugares aonde vou, a despeito da crise econômica, da guerra e da incerteza sobre o amanhã, ainda vejo otimismo. E esperança. E força”, disse. “Não serei o presidente perfeito. Mas posso prometer que sempre falarei a vocês sobre o que eu penso e o que apóio”, declarou o candidato. Parecer ser o cara certo para a hora da mudança. O momento de inflexão que se aproxima. Essa é a mensagem para o eleitorado.
Que haja uma mudança. Para enterrar de vez o que está aí e deu errado. Terça-feira, dia 4 de novembro, pode ser a hora. Vamos ver.