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Matamos Eloá

Em mais um capítulo dantesco da nossa era do "jornalentretenismo" (sic) ou do jornalismo de entretenimento, a mídia ultrapassou os limites éticos e escancarou como é ela uma especialista em promover espetáculos em vez de informação para o deleite da nossa sociedade.

Aponto o caso da menina Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, seqüestrada e morta pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, depois de ter permanecido sob seu tacão durante cinco dias. Se você não estava em Marte, sabe que o caso aconteceu em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. A menina foi vítima do rapaz, mas também da mídia, incluindo aqui nós, os jornalistas.

Durante cinco dias, sob intenso bombardeio, a sociedade brasileira foi brindada por flashes no rádio e na televisão sobre o andamento do rapto da garota, depois que o ex-namorado invadiu o apartamento onde a jovem morava e a manteve sob cárcere privado, junto com outra adolescente e dois amigos.

Ninguém se preocupou em preservar a garota. Ou a amiga dela, que também acabou ferida no desfecho do caso, na sexta-feira. Elas não eram menores de idade? E por que diabos não foi invocado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proteger a identidade de Eloá? Por que exibir suas fotos e seu nome?  Ou da amiga?

O caso teve todos os contornos de um drama de novela das oito, de cunho folhetinesco. A história do rapaz que levou um fora da namorada e, movido pelo ciúme, resolveu tomá-la de volta.

As emissoras de televisão se esbaldaram. Mais uma vez. Assim como no caso da garota Isabela Nardoni, não tivemos freios para tocar o espetáculo. Afinal, o raciocínio nas TVs e rádios é de que é preciso garantir a audiência. E dane-se o resto. Panis et circensis...

O caso é emblemático para fazer do país matriz mais que atual do conceito de sociedade do espetáculo, citando Guy Debord.

O fato é que, assim como no caso Nardoni, houve dessa vez de tudo um pouco. Com menos de 24 horas, o seqüestro passou a ser acompanhado quase que exclusivamente pela televisão. Em tempo real, como manda o marketing das nossas emissoras. 

Enquanto a polícia negociava com o rapaz, estrelas do "jornalentretenismo", como Luis Datena e Sônia Abraão, disputavam a primazia de capturar a atenção do espectador para exibir as melhores "entrevistas" com Lindemberg.

O próprio rapaz passou a acompanhar o drama em que era ele mesmo o protagonista pela televisão. Lindemberg sabia o que pensavam os especialistas graças à televisão. E era pela televisão que se "defendia" ou falava de seus sentimentos. Sempre para os âncoras do jornalismo de entretenimento.

Os sinais de que a mídia extrapolara suas funções ficaram claros ainda no primeiro dia, quando a jovem apareceu na janela de seu apartamento sorrindo para as câmeras. Ora, ora... Ninguém, em sã consciência, considera isso um sinal de embaraço? Nada, toquemos o espetáculo.

Daí até as sucessivas "entrevistas exclusivas" de Lindemberg, a palavra de especialistas - psicólogos, terapeutas, pastores e toda sorte de midiáticos -, as "negociações" feitas por cartolas, a interferência de comentaristas, a sucessão de sandices correu sem qualquer tipo de controle. Quando veio a soltura da amiga de Eloá, chamada Nayara, o clima já era de catarse.

No dia da invasão da PM ao apartamento onde estava o rapaz e as duas garotas, a imprensa já tinha perdido a chance de exercer qualquer espécie de avaliação crítica sobre sua própria atuação. E dá-lhe certezas peremptórias sobre o desequilíbrio de Lindemberg e quantos anos de "cana dura" ele ia puxar...

Agora, a mídia busca culpados. Fala-se na inépcia da polícia. Pode ser. Mas, não precisamos ir muito longe. Jornalistas, apresentadores de tevê e congêneres, todos nós precisamos de espelho. Gritemos: Eloá, nós te matamos.

20 Oct 2008 por Nonato Cruz
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