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Bin Laden e a Guerra Fria
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Seis anos depois do massacre promovido pela Al Qaeda no coração da América, não há como lembrar que o líder da organização terrorista é fruto direto da política de Estado dos falcões de Washington. O responsável pelo atentado contra as torres do World Trade Center, do Pentágono e por dezenas de ações na Europa nos últimos 60 meses é um ex-aliado de presidentes dos Estados Unidos. O arábe Osama Bin Laden, 50 anos, filho do milionário saudita Abdulrahaman Awadh, tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 200 milhões de dólares colocada a serviço de sua guerra santa contra o ocidente. Acusado pela CIA, o serviço secreto estadounidense, e pelo FBI, a polícia federal norte-americana, de ser o mentor dos atentados, Laden é resultado da equivocada política externa de Washington, sustentada durante os anos da Guerra Fria. Foi a mesma CIA que, cinco dias depois daquele fatítico 11 de setembro de 2001, reconheceu de ter sido a mando de Bin Laden o ataque ao World Trade Center, em Nova York , e ao Pentágono, em Washington, que lhe ensinou sofisticadas técnicas terroristas durante a guerra do Afeganistão, ainda no final dos anos 70. Bin Laden tinha então 22 anos e era egresso da Universidade de Yedah, na Turquia. Com o objetivo de combater os comunistas soviéticos, que se instalaram no Afeganistão em 1979, ele procurou a embaixada dos Estados Unidos em Ankara, na Turquia, para buscar ajuda.
Sua intenção era entrar na guerra contra a União Soviética, que mandara ajuda militar ao regime comunista no Afeganistão, alvo dos guerrilheiros islâmicos mujahidin. O presidente dos Estados Unidos era Ronald Reagan. A CIA podia nem saber do que o jovem muçulmano era capaz, mas ele era um empreendedor objetivo e metódico.
No início dos anos 80, Bin Laden montou uma rede espalhada por diversos países no Oriente Médio para arrecadar fundos. Ao mesmo tempo, começava a recrutar combatentes para ajudar os afegãos mujahidin a combater os invasores soviéticos, que só desocupariam o território do Afeganistão em 1988. A pretensão do jovem estudante fundamentalista era estimulada pelos americanos, preocupados com o desequilíbrio político na região, pela forte influência do então "Império do Mal", representado pela União Soviética, como insistia Reagan. Ajudado pelos interesses anti-comunistas dos Estados Unidos, Bin Laden tratou de colocar a mão na massa, preparando-se para formar um exército pessoal.
Nascia no início da década de 80 o grupo radical Al Qaeda (A Base, em árabe). O grupo combateu duramente o Exército Vermelho em território afegão. De acordo com relatórios da inteligência americana, o grupo de Bin Laden passou a se financiar principalmente com a produção e o tráfico de ópio, base de uma das mais consumidas drogas do ocidente: a heroína.
Ao longo dos anos, a Al Qaeda se desdobraria em células por 34 países, segundo fontes norte-americanas, incluindo o Reino Unido. Bin Laden colocou em prática tudo que aprendeu com a CIA, passando para frente o conhecimento do terrorismo, incluindo a montagem de campos de treinamento para até 2.000 combatentes no Afeganistão, onde se instalaria em 1995.
SADDAMMagro, com pouco menos de 67 quilos distribuídos ao longo dos seus 1,96 metro de altura, Bin Laden é há cinco anos a encarnação do mal aos olhos da sociedade norte-americana. Mas a ruptura com os velhos aliados na década de 80 ocorreu apenas em 1990, dois anos depois que o Exército Vermelho da URSS se retirou do território afegão, dividido entre o regime apoiado por Moscou e os mujahidin. A ONU proporia em 1991, ao então presidente do Afeganistão Mohamad Najibullah, um plano de paz rejeitado pela guerrilha.
A ruptura de Bin Laden com os EUA, entretanto, decorreu da briga de Washington com Saddam Hussein, o presidente do Iraque, outro ex-aliado dos norte-americanos. No combate a Saddam, os Estados Unidos determinaram o desembarque de tropas na Arábia Saudita, a terra dos lugares sagrados para os muçulmanos, sede de Meca e Medina. O suficiente para desagradar a Bin Laden, cuja fé em Alá e nos princípios do islamismo se converteriam em fanatismo, segundo informes da CIA. Foi nessa época, ao romper com a monarquia saudita, que ele aderiu à ala extremista dos muçulmanos.
Ao longo dos anos, o grupo Al Qaeda passaria a utilizar a Internet para passar mensagens e fotografias codificadas para organizar os atentados terroristas, desencadeados contra o Ocidente a partir dos anos 90. De acordo com o jornal norte-americano USA Today, os dados e informes do grupo passaram a ser distribuídos na Internet graças ao emprego de portais, notícias financeiras, chats e até sites contendo pornografia. As informações manejadas por hackers escolhidos por Bin Laden seriam criptografadas e só decodificadas graças a programas elaborados pelo grupo.
AMEAÇA No início deste ano, o diretor da CIA, George Tenet, disse à Comissão de Inteligência do Senado dos EUA, que Bin Laden era "a ameaça mais imediata e séria" à segurança nacional do país. Nos altos escalões do governo George W . Bush já se previa que a Al Qaeda poderia atacar a qualquer momento, conforme reportagem da revista Newsweek. Fontes do governo chegaram a informar a jornalistas norte-americanos que Bin Laden tentou comprar urânio por US$ 1,5 milhão de comerciantes clandestinos do Sudão. Aparentemente, não teria tido sucesso, conforme uma testemunha que depôs em julgamento, em razão da explosão das embaixadas americanas na África, em atentado praticado em 1998. O maior temor da CIA e do FBI é que o grupo já detenha armas atômicas ou tecnologia para fabricá-las. O preço a ser pago em atentados nucleares seria muito maior.
Em seu esconderijo, nas montanhas do Afeganistão, o próprio Bin Laden tem acesso a alta tecnologia, de acordo com a repórter Marie Colvin, do jornal britânico The Times, que o entrevistou em 1998. A "caverna do morcego", onde ele vive de maneira monástica e sem luxos, guarda computadores de última geração, além de fuzis russos Kalashnikovs, e livros islâmicos. No cardápio, nada de luxo: apenas pão com queijo e leite de cabra.
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