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Ricardo Noblat 





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A ORDEM VERTICAL

     Nas grandes cidades do Nordeste, do país, as gestões municipais tentam adotar medidas para preservar as áreas centrais, históricas, de sorte a manter uma imagem positiva. As intervenções do setor público têm reflexos na conservação de ruas e avenidas, recuperação de pontes, parques, praças e jardins, tornando partes das cidades mais bonitas, bem cuidadas, com poucas marcas de descaso. Assim as cidades ganham feição moderna, num ritmo de progresso que encanta e preocupa, pois se limita a cuidar da aparência, de preservar parte da paisagem - da área colonial, bairros tradicionais, expressão do passado, parte de uma história que tem beleza e marcas de arte e cultura.

     Não há porque negar elogios ao trabalho que visa tais objetivos e que indicam a busca de uma política de ordenamento urbano, de ocupação disciplinada do solo. Até porque, nesse aspecto, a administração municipal tenta responder aos anseios da comunidade, que quer manter seus pontos de referência, recantos e encantos de tantas gerações. Então crescem também as reivindicações de preservação do verde, de áreas históricas, de revitalização dos cursos d’água.

     A atuação da comunidade, apesar de limitada, tem reflexos nos esforços de preservação e modernização das cidades, exigindo medidas contra as agressões ao meio ambiente, as obras e construções prejudiciais ao seu equilíbrio, ou seja, as cidades têm de crescer, progredir, mas as ações não podem e nem devem sacrificar ainda mais o equilíbrio ecológico.

     Ele vem sendo castigado por construções inadequadas, favelas ou espigões, de forma que compromete seriamente o setor de saneamento, os esgotos, os rios e canais, as praias, que não podem suportar a desordem que avança nos espaços urbanos. É lamentável constatar, pois, que ao lado das favelas que crescem nas áreas de mangues, margens dos rios e lagoas, da devastação das matas, estão avançando as construções de espigões, de condomínios neo-medievais, visando vender “aprazíveis paisagens”. Por assim dizer, não existe um limite para tais empreendimentos, que avançam sobre o verde, o sistema de saneamento, que em muitos casos não é apenas precário, simplesmente não existe.
 
     É bom lembrar que nos 60, num poema de protesto, Ascenso Ferreira convidava Maria para ir embora, pois as panzer divisões de cimento armado estavam tomando conta do Recife colonial. Agora, as divisões de concreto armado avançam assustadoramente sobre outras áreas do Recife, de outras cidades do Nordeste e do país, numa proporção gigantesca, com espigões de até 40 andares.

     Esse quadro é preocupante a partir da constatação de que, nas áreas sob ocupação, além da deficiência do sistema de esgotos, de vias de trafego, não há parques, praças, e os espaços livres vão sendo tragados pelo setor imobiliário.

     Nessa marcha, dentro de pouco tempo a maior parte das Capitais, poluídas e mal saneadas, as cidades próximas, as de porte médio, podem repetir o que já acontece nas metrópoles, pobres de vegetação e sistemas de saneamento.

     Daí vai acontecer o inevitável: a marcha para a periferia, que logo terá também ocupação mais desordenada, sob o comando da ordem vertical, sem regras e sem limites. Não é um avanço, um reflexo de progresso, mas uma caminhada sem volta no rumo da insensatez, do descompasso entre o urbano e a desordem que anula seu objetivo.

     As cidades do Norte/Nordeste, Centro Oeste, do Sul e Sudeste, na prática não contam com uma legislação que imponha limites ao progresso vertical, com definição de áreas e de um patamar a ser respeitado. Pior: há tolerância para certas construções, havendo reação dos moradores de bairros com maior poder de pressão, que tem efeito reduzido no combate à desordem urbana.
 
     As reações na prática são inúteis diante das pressões do setor imobiliário, da especulação, do crescimento dos edifícios, pois quem manda é a ordem vertical, sempre em busca de novas áreas, ocupando grande parte das cidades, sem que haja ao menos a preocupação de preservar espaços para novos parques e praças, plantar árvores e construir jardins, como acontecia até fins das décadas de 60 e 70 do século passado. Numa palavra, o Legislativo faz reuniões, encontros, discursos sobre o meio ambiente, louvações ao direito de cidadania, e o Executivo faz intervenções que modernizam ruas, revitalizam antigos logradouros, enfim obras visíveis.

     Mas ao lado disso não definem normas de ocupação, evitando que as cidades sejam no futuro apenas um universo de lamentações sobre o meio ambiente, o verde, o equilíbrio ecológico. Não basta, pois, falar de consciência ecológica nas escolas, na televisão, na Internet, quando na prática cada cidade sacrifica sua paisagem, qualidade de vida, e de concreto apenas cresce o discurso sobre ecologia. É importante, mas a rigor ainda estamos muito distantes do fundamental.

* Nagib Jorge Neto - Jornalista e escritor, maranhense residente em Recife.


RELATO DA REBELIÃO

* Nagib Jorge Neto

     A concepção da obra, a força da escrita, amplia a visão da última rebelião em Goiana, província de Pernambuco, e a dimensão e compreensão das revoluções e insurreições liberais no Estado no século XIX. É um relato inovador na forma, numa ruptura com o linear e a rigidez dos critérios de cronologia; e um avanço no conteúdo, no enfoque das causas políticas, econômicas e sociais que marcaram as reações ao arbítrio e ao domínio português no Império.

     Nesse sentido, Eça de Queiroz, Agitador no Brasil –, obra de Paulo Cavalcanti publicada em 1945, e agora em 4ª. edição -, reflete a sua coerência como escritor, a sua crença de que a história é sempre contemporânea, atual. Daí a missão de contar “a história do movimento nativista, das lutas políticas de Pernambuco e do Brasil como um instante de civismo, mas também com uma página saborosa de irreverência e humor”.

     Além disso, questionar o “gênero das classes dominantes, seus escribas, que objetivam sacralizar sua ideologia, vestindo-a de roupagens espetaculosas, na calhorda atitude de reservar para si tudo que aconteceu no passado – das campanhas libertárias à consolidação da nacionalidade, passando pela Abolição e pela República.” Ou como diriam Rubim de Aquino e Fernando Vieira, em Sociedade Brasileira – Uma história (Record, 1999) “um esforço de reconstrução do passado, com o estudo das múltiplas revoluções populares, de resistência à opressão, inseridas no contexto dos interesses políticos e econômicos e no plano da história econômica e cultural”.

     Assim, o relato começa com a abordagem da situação política em 1871, da crise no Império, da reação aos gabinetes, e da omissão do governo diante dos anseios de abolição da escravatura, das reformas eleitoral e judiciária. Mais: da insatisfação com a dominação portuguesa, o monopólio do comércio, que não se alterou depois das revoluções de 1817, 1824 – Confederação do Equador -, 1848 (Revolução Praieira), as rebeliões de 1821 e 1823 e as agitações de 1831 e 32.

     Naquela fase, a situação política e econômica favorecia a inquietação em Goiana, na época uma cidade próspera, e tinha reflexos também no Recife. Então surge o periódico As Farpas, de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, com críticas ironizando Dom Pedro II. O Imperador estava na Europa, mantendo contatos com escritores, autoridades, e os editores de As Farpas transformaram a sua excursão “num grotesco espetáculo de circo, caricaturando tudo que o monarca fizera, ou dissera, como primeiro viajante de sua pátria”. Os jornais de Goiana e Recife reproduziam os textos de Eça e Ortigão e, nessa marcha, cresceu a polêmica, a discórdia, com os pernambucanos usando a publicação como arma política.

     A velha província, que contribuiu para avanços visando à soberania do país, voltou a ser o foco das agitações, predominando sobre o resto do país. E novamente o “maldito vapor pernambucano” passou a liderar as reações ao monopólio do comércio, ao domínio econômico dos lusos, mobilizando segmentos da intelectualidade, das lideranças populares, desencantadas com a concentração da propriedade, a situação da maioria, sobretudo no campo, onde o pobre era “rendeiro, agregado, camarada, ou que quer que seja, e então a sua sorte é quase a de um antigo servo da gleba” conforme constata em 1871 o presidente da província, Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque.

     As críticas e sátiras de Eça de Queiroz, reproduzidas em Goiana e Recife, animavam os pernambucanos, os “amarelos” de Goiana, e irritavam os galegos. Até aí tudo bem, mas Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, irritados com o uso indevido de seus textos, passam também a ironizar os brasileiros, monarquistas ou republicanos, com sátiras e alusões insultuosas. A polêmica se amplia, aumenta a animosidade entre galegos e amarelos, surge o jornal A Crise, editado por José Soares Pinto Correia Junior. O periodista ironiza Eça e Ortigão, e também o Rei Dom Luis I, de Portugal.

     Na mesma fase surge As Frechas, numa linha de combate aos portugueses, que só ensinaram aos brasileiros “a prostituição, o adultério, a poligamia”, ou coisa pior “o fabrico de moeda falsa, certas maneiras de escrituração dos livros comerciais “para quebrar-se dolosa e falsamente”.
Nesse clima, a polêmica em Goiana descambou para ataques e insultos: “Marinheiro/ pé chumbo/ Calcanhar de frigideira/ Quem te deu a ousadia de casar com brasileira”.

     Os galegos reagiam: Pra que secretos misteres/ Patriota brasileiro/ Dais a filha pra mulher/ Ao burro do marinheiro”. E vinha a resposta: “Sempre viva a Independência/ E perpétua a luta seja/ Que o domínio português/ Nesta terra não se veja/ E o contra ataque: Se não tememos brejeiros/ Do país grandes guerreiros/ Temos balas, armas pólvora/ Cagamos nos brasileiros”.

     Era julho de 1872 e crescia a exaltação de ânimos. Em jornais, panfletos, praças públicas, comícios, portugueses e pernambucanos, galegos e amarelos, trocam acusações, enquanto surge um complicador - A Questão Religiosa, que iria gerar agitações e desordens no Recife.

     Nos debates, a participação de Aprígio Guimarães, Franklin Távora, José Mariano, Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, que discorda das reações de Goiana contra os portugueses, e os jornalistas Pinto Correia e Romualdo de Oliveira, fundador do “Comércio a Retalho”.

     Nesse clima de agitação, na noite de 31 de julho de 1872, os “amarelos” de Goiana tentaram surrar um comerciante português. A agressão foi impedida, mas no dia seguinte começou a rebelião, “o mata-mata marinheiro”, com os portugueses sendo surrados com cacetes feitos de quiri e cipó de pau.

     A cidade ficou em desordem, o comércio paralisado – era quase totalmente controlado pelos lusos -,  situação que perdurou até seis de agosto daquele ano. Após o controle da situação, os participantes do movimento foram processados, mas a reação dos pernambucanos impediu que fossem punidos em 1875.

     No período, Eça de Queiroz foi  acusado de influenciar a discórdia, a agitação, mas reagiu com indignação:
“Portanto, além da influência das Farpas, há outra coisa. Há... que entre portugueses e pernambucanos sempre tem havido desordens regulares e esporádicas; há que o comércio de Pernambuco está nas mãos e nos cofres dos portugueses que, mais ativos ou mais inteligentes, arrancaram dos cofres e das mãos dos pernambucanos; há que Pernambuco não suporta esta colônia que se apossa, pala superioridade da riqueza do país, enquanto os naturais caem em subserviência”.

     No curso da narrativa, Paulo Cavalcanti elogia e faz reparos ao estilo de Eça de Queiroz, também criticado por Machado de Assis, mas destaca a influência que exerceu sobre os escritores brasileiros. E vai além ao enfocar o papel da imprensa, dos jornais que circulavam em Recife e Goiana, e da efervescência política e cultural marcante na cidade, que passou a ser punida economicamente no final daquele século.

     Num estilo leve, agradável, os capítulos deste Eça de Queiroz, Agitador no Brasil, podem ser lidos como relatos que se interligam, sem a mesmice da linearidade, da técnica de seqüência rígida, No final, Paulo Cavalcanti destaca um desabafo de Eça de Queiroz ao saber da herança deixada por um brasileiro para intelectuais:
“Os únicos escritores que receberam anonimamente alguma coisa por meio de correio, fomos nós, Ramalho Ortigão e eu, quando redigíamos ambos As Farpas: recebíamos muito regularmente do Brasil – promessa de bordoadas”.             
                          
* Nagib Jorge Neto - Jornalista e Ecritor maranhense, residente em Recife.


A VANGUARDA DO ATRASO

     A categoria não deve ficar espantada, ou desencantada, com a decisão do Supremo Tribunal e as ilações e sofismas do presidente do órgão visando justificar a dispensa de formação e registro para o exercício da profissão de jornalista. A medida é apenas uma tentativa de suprimir conquistas e impor um retrocesso, com velhas práticas definidas e reguladas pelo tacape do mercado. E faz parte de ações e reações antigas contra o jornalismo, os jornalistas, também outras profissões, numa escalada para  enfraquecer as lutas sociais, estratégia que pode ser um tiro no pé do sistema.

     Por dois ou três equívocos: supor que escrever, fazer artigos, ensaios ou ficção, assegura o domínio de técnicas inerentes às funções de repórter, redator e editor; admitir que qualquer escriba tem noção do fazer jornalístico e daí as empresas podem reduzir custos com pessoal,  obrigações e questões trabalhistas; ou mais grave: ignorar o avanço da internet, que cresce como espaço de notícia e crítica,  ameaçando a  mídia impressa  e eletrônica, com limites de espaço, da liberdade de informação e do debate público.     
Assim, a decisão prejudica os jornalistas, os cursos de jornalismo e as empresas, até porque ignora o fato de que “o aparecimento das profissões, diferenciadas e bem estruturadas, prende-se à divisão social do trabalho”. A conclusão é de Evaristo de Morais Filho, segundo o qual a regulamentação das profissões e a organização de associações e sindicatos no país só começou em 1903, através do decreto-lei 979, que atendeu os agricultores e foi ampliada, em 1907, com as sociedades cooperativas e o direito de associação para todos os profissionais, inclusive os liberais.”
 Nesse sentido, assegura: a medida foi tardia, pois “na idade média – com o sacerdócio, o direito e a medicina – se começou a cuidar propriamente do que se poderia chamar regulamentação da profissão”. Antes disso, portanto, sob pretexto de combater o corporativismo, vigorava a teoria da vontade geral, de Jean Jacques Rosseau, alterada na França em 1884, através de lei que assegurou a regulamentação e organização das profissões industriais, estendida depois aos agricultores.

     É inegável, pois, que a decisão do supremo contraria os fundamentos do Estado do Moderno, as conquistas do século XX, numa reciclagem da “vontade geral”, sob o falso pretexto de defesa da liberdade de expressão e o argumento de que a exigência de diploma, de registro, tem base somente no decreto 972, de 1969, do período em que não havia liberdade de expressão intelectual, artística e científica. A tese não tem fundamento, pois antes do decreto os profissionais de comunicação, os sindicatos e associações, vinham lutando por normas, formação e qualificação profissional.
Tanto que o decreto foi editado depois de mais de um século da instalação do nosso primeiro jornal (Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808) e de 23 anos do surgimento do primeiro curso de jornalismo no Brasil, em 1946, na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio. O curso foi julgado esquisitice, pois os jornalistas eram literatos e bacharéis que faziam bico, ou focas com textos ou anotações que precisavam ser escritos ou reescritos.

     É certo que havia nomes de prestígio nas letras nacionais, mas um repórter podia ser recrutado sem qualquer teste, curso, situação que passa a ser alterada em fins dos anos 40 e na década de 50. Em Pernambuco os jornalistas criaram sua primeira associação em 1941 e fundaram o Sindicato em 1947, reflexo das decisões da Conferência Internacional do Trabalho de Genebra e do empenho em defesa da liberdade e do papel da imprensa na missão de informar e contribuir para formar opinião. No país, em 1950, houve a adoção de técnicas modernas de redação, de enfoque, sendo exemplo disso o Jornal do Brasil e a Última Hora, que inovou na contratação de pessoal qualificado, com carteira assinada e melhorias salariais.

     Os avanços das técnicas, da sistematização do conhecimento, vêm se consolidando nos cursos de formação, registro de jornalistas, inerentes ao exercício da profissão. Tal fato não impede que pessoas de outras profissões exerçam a liberdade de opinar, de escrever para os jornais, rádio ou televisão. A hipótese de prejudicar uma vocação, um talento, ou ser uma reserva de mercado, não passa de argumento contra as lutas em defesa da liberdade, de princípios éticos e da qualidade da informação.

     As alegações ditas jurídicas, libertárias, não justificam a decisão e outras iguais que contrariam o direito e a justiça. A rigor comprova que a instituição assume “a vanguarda do atraso”, por ser intocável, nada temer e ficar impune com as práticas de nepotismo, distorções, abafadas com ameaças do poder aos meios de comunicação.

* Nagib Jorge Neto - Jornalista, Escritor e Advogado, maranhense radicado em Recife.      

O ESCRITOR E A REALIDADE NACIONAL - 1ª. Parte

        Apesar da censura, da repressão, os escritores brasileiros, com raras exceções, souberam reagir, enfrentar as limitações impostas pelo regime autoritário e contribuíram, com seus textos e ação política, para o avanço da sociedade na busca de democracia, liberdade e justiça social. Assim, nas fases mais ameaçadoras do sistema, correndo riscos, eles produziram obras de denúncia, de crítica, que hoje constituem marcas de um tempo, expressões de idéias e ideais sufocados, com reflexões que favorecem a compreensão do presente  e a construção  do futuro.

    Nessa busca de resistência, houve uma explosão do conto no início  dos anos 70, exatamente quando os meios de comunicação social estavam sob rigorosa censura, grupos de guerrilha contestavam o regime com ações armadas e o Estado - na sua onipotência - espalhava o terror no país, com violação de lares, instituições e entidades dos movimentos sociais, na busca de intimidar e reprimir as forças de oposição ao regime.

     Na época, dado o volume da produção, não faltou quem caísse no equívoco de admitir que as condições adversas favoreciam a criação, quando na verdade o que havia  era uma brecha para enfocar a realidade nacional,  dar um recado imediato, quer de forma direta, quer usando o recurso da alegoria. Mais ainda: o sistema não era tão ingênuo quanto julgavam - tinha noção do alcance da penetração do conto, do romance, da poesia ou do ensaio, e preferia exercer maior controle sobre os jornais,  rádios , televisão, teatro e cinema. Então surgiram os debates, os encontros culturais e políticos, que abriram caminho para o abrandamento da censura e a conquista da anistia.

     Até então, de acordo com os dados disponíveis, a censura atingiu 200 livros, 450 peças de teatro, 500 filmes, 292 composições (este dado referente ao período 70/76) e um número incalculável de textos em jornais e revistas em todo o país. A repressão política, por sua vez, cassou mandatos e direitos políticos de centenas do cidadãos, forçou o exílio e baniu muitos outros, além de tirar a vida de cerca de 400 pessoas.

    Depois dessa fase lamentável, as mudanças vieram com promessas de liberdade, desenvolvimento e muita gente admitiu que a nova situação traria de imediato crescimento da produção literária, com romances, contos, poesia, peças de teatro, bem como aparecimento de novos escritores. Mas não houve, nessa área, fenômeno idêntico ao período 70/75, até porque a abertura política não correspondeu aos anseios da sociedade, foi marcada por restrições, perplexidades, recuos, além de um modelo econômico que provocou a recessão e, por esta via, conteve as reivindicações, na medida em que a ameaça do desemprego passou a ser um  instrumento de repressão.

    Nesse aspecto, tudo leva a crer que em princípios da década de 70, ao lado do descontentamento com o sistema, do amadurecimento para abordar suas distorções, havia um clima favorável no mercado, onde parcelas  da classe média, beneficiada com empregos e rendas, dava  sinais de inquietação face ao sistema repressivo, que de forma indiscriminada ameaçava sua segurança, tranqüilidade ou atingia - direta ou indiretamente - pessoas ou grupos a ela ligados. Desse modo, além da motivação política, havia poder aquisitivo que ajudava na circulação do produto cultural.

    Com a recessão, uma estratégia por razões econômicas e políticas, cresceu o medo da punição com a perda do emprego, o empobrecimento da classe média e a retração do movimento das classes sociais por melhores condições de vida, o que resultou no conseqüente estreitamento do mercado.  As editoras, que apostaram de forma tímida na ficção, logo tentaram uma saída com ensaios, pesquisas, reportagens sobre corrupção, best-sellers, marcados por louvações no exterior ou obras que podiam ser editadas sem pagamento de direitos autorais.

    Na prática, somente os autores tidos como “feitos”, sobretudo do Centro-Sul, foram lançados pelas grandes editoras - alguns pouco conhecidos, velhos ou novos, ora para manter as aparências ou na base de critérios de amizade, apadrinhamento. Esse fato contribuiu, sem dúvida, para desestimular parte dos jovens autores da década de 70 – quase todos quarentões - muitos dos quais continuam produzindo, refletindo sobre a realidade nacional, mas que não encontravam e nem encontram espaço para editar seus trabalhos, tampouco têm divulgação eficiente quando lançados por qualquer editora.

     Assim, a situação econômica, a repressão contra escritores e editores, por si só, não explicam os tropeços dessa área no regime autoritário. É verdade que naquela fase - com maior ou menor força - o Estado cuidou de impedir a atuação política dos jovens, de profissionais liberais, de outras categorias sociais, de sorte que ponderáveis parcelas da população ficaram sem condições de debater, participar, crescer e ter motivação para a leitura.

     O sistema de ensino - do 1° grau até a Universidade - foi levado a desenvolver esquemas alienantes, com base no teste objetivo, múltipla escolha, créditos, de modo que os alunos passaram a estudar menos, apelar para o chute, confiar em resumos de matérias, com queda do aprendizado e menor esforço de reflexão. O interesse pela leitura experimentou acentuada redução, tal como constata uma pesquisa da revista Escrita, de 1978 (ainda atual), na qual se constatou que 80% dos adolescentes entrevistados não tinham o hábito de ler. Um quadro que mudou pouco após a redemocratização e que persiste como parte da pobreza do sistema de ensino.

* Nagib Jorge Neto - Jornalista e Escritor, maranhense radicado em Recife.


GAVIÕES LIBERAIS

     No princípio era a promessa de ouro, que seria a salvação, e assim os gaviões boiaram sobre as águas e voaram certos de que a noite nunca teria fim. Eles sempre falavam em progresso, riqueza, mas nunca deixaram cair uma pepita. Então nada de ouro, apenas águas turvas, revoltas, que não assustavam os gaviões.

     - Que diabo de confusão é essa, Abelardo?

     Num tom calmo, tranqüilo, Abelardo respondeu a Esperançoso: os gaviões eram chefes, chefinhos e puxa-sacos, pequenos patifes que se comportavam como grandes patifes. Essas aves malvadas estavam empoleiradas em empresas, instituições públicas, associações, aqui e ali apelando para rasteiras, canalhices, mas mantendo certas aparências.

     - Ah, você quer falar mal do Governo. É por causa dos juros, das invasões e greves, da desordem e dessa bandalheira da política e da corrupção.

     - Nada disso, Esperançoso. Ai é só uma parte da confusão.
O rio, o mar, sempre esteve e está com os gaviões. Eles passaram anos acumulando riquezas, ameaçando trabalhadores ou dispensando com pretextos absurdos. Nas empresas públicas, privadas, tecnocratas e burocratas sempre mandaram, desmandaram, com ajuda de bajuladores, enquanto as forças discordantes, sempre fracas, eram sufocadas, vítimas de planos mirabolantes, de lobistas e picaretas, de bambas em usar mulheres, promover festas e bacanais.

     - Assim é demais. Você quer dizer que o poder era e continua um misto de mercado e bordel?

     - Nem tanto, digo que tem sido parte de negocio, sexo, espécie de lazer.

     Esperançoso - um otimista radical - ficou irritado, enquanto Abelardo - esquerdista moderado – argumentou não ser contra o lazer, a gandaia, mas nunca com o dinheiro do povo. Tampouco se devia aceitar que os desajustes econômicos, oscilações das bolsas e interesses dos especuladores implicassem a retirada de um trabalhador ou de um grupo de profissionais de seus empregos e das atividades vitais ao crescimento.

     - Você quer dizer que ninguém presta? Não é possível.

     - Eu quero dizer, Esperançoso, que hoje cresce o desrespeito à lei que defende o trabalhador. Que seu emprego depende do mercado, do patrão, de intriga e fofoca.

     - Mas tem lei. Isso é uma calúnia. Uma bobagem do tempo do atraso.

     Abelardo lembrou vários casos de demissões, perseguições e injustiças. Daí sentenciou categórico: as relações de trabalho vão mal e o que resta das leis trabalhistas não adianta de nada. Afinal, além de salário, renda, era preciso condições de trabalho, respeito à dignidade de cidadão ou cidadã, sem humilhação, perseguição, desemprego e mais pobreza.

     - O tempo é de crise, de ajuste, está havendo demissão, logo melhora.

     - Não melhora assim, isso eu juro, disse Abelardo.
Daí criticou a astúcia da modernidade, a falácia do negócio próprio, do fim do emprego, geração de renda, enquanto as empresas avançam na sanha de automação e maximização dos lucros; e acusou os gestores do setor público de também usar a tática de cortes de gastos, de pessoal, ou seja, tentar esconder que tais medidas têm ligação direta com transações das cúpulas e nunca com a ausência de necessidades a atender.

     -  E então qual é a esperança? Indagou Esperançoso.

     - É dela que estou falando. Os gaviões estão inquietos, nervosos, insanos, mas os trabalhadores estão reagindo contra as armações da modernidade liberal, o horror econômico, pois o modelo avança na supressão de direitos, conquistas sociais, enquanto promete oportunidades para todos.

     - Não vai dar em nada, Abelardo. Deixa isso por conta do Governo, da força.

     Abelardo lembrou que a crise, a reação das empresas, dos acionistas, que marcou também as crises na fase das ditaduras, é sinal de que tentam dourar o outono, temem o fim. Eles continuam prepotentes, ameaçadores, insanos, avançam em recursos do Estado, daí perdem pouco, enquanto enfraquecem a economia a nível mundial. Mas sem a armadilha do Estado mínimo, dos incentivos, terceirização, desemprego e desmonte dos direitos trabalhistas, os gaviões vão perder o poder de enganar a maioria com promessas de ouro e riqueza.

* Nagib Jorge Neto - Jornalista, Escritor e Advogado, maranhense radicado em Recife-Pernambuco.



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