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Ricardo Noblat 





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JOAQUIM ITAPARY REVELA PRESENÇA DE HITLER NO MARANHÃO

                       Adolf Hitler no Maranhão

                    Auge da 2ª Guerra, na orla de Guimarães, boca da Baía de Cumã, durante a escuridão da lua nova de agosto de 1944, um ser ou aparelho estranho aponta  olhos de luz para a praia deserta. Autoridades militares e governo se assustam e entram em prontidão. Dirigíveis da US-Navy, acantonados no Tirirical, sobrevoam a área. Tão rápido como surgira o temido “Monstro de Guimarães”some, desaparece para sempre. Fica com pescadores o temor e,  na História, um mistério que perdura até agora.

                 O que teria sido aquele fantástico acontecimento? Hoje, essa é mais uma incógnita desvelada de nossa pobre História. No último número da revista alemã “Der Spiegel”, um artigo de Heine Krügger, decano da Universidade de Leipzig, desfaz o enigma.

                 Com outras palavras, aquele notável historiador conta que, em 20 de julho de 44 um grupo denominado Círculo de Kreisan, liderado pelo conde Von Moltke, contrário ao nazismo, perpetra um atentado à vida de Adolf Hitler. O coronel Claus von Stauffenberg, membro do Círculo, instala uma bomba poderosa dentro do QG do Führer, em Rastenberg, na Prússia Oriental. Uma pasta deixada no chão, bem perto da cadeira onde Hitler sentaria, contém a bomba. Às 12:30h, entram no recinto todos os membros do QG, o ditador à frente. Stauffenberg sai e aguarda a explosão que se daria 10 minutos depois, exatamente às 12:40h. Morrem dois oficiais, um estenógrafo, e o respeitadíssimo general Brandt, considerado o maior teórico do exercito alemão, depois de Von Clausewitz. Brandt havia afastado a pasta para longe da cadeira do Führer, temeroso que esta atrapalhasse seus passos. E assim Adolf Hitler sobreviveu. No hospital, em vista ao almirante Puttkammer, ferido no atentado, o ditador é advertido pelo chefe do Sichereitsdienst [Serviço de Segurança] que novos atentados ocorreriam. Então, o almirante, no leito, segreda a Hitler: “No porto de Cuxhaven, 100k a Oeste de Hamburgo, há um submarino, o SS-199, o mais novo, veloz e seguro da frota, sob o comando do capitão Hans Kurt Öyster, de absoluta  lealdade, pronto para manter o Führer seguro e isolado, em lugar incógnito e remoto. Vá sem temores; a tripulação é de minha inteira confiança.” Seguindo o conselho do velho almirante, o ditador e sua amante Eva Braun seguem imediatamente para o porto e embarcam, às ocultas, no SS-199 que, logo no dia 21 de julho zarpa em demanda do Atlântico Sul.

                O diário de bordo, manuseado pelo venerando historiador de Leipzig, registra que o submarino cruzou o Equador às 22 horas do dia 3 de agosto. No dia 4, pelas 12 h, o barco estacionaria a 2°07`57” de Lat. S e 44°36`04” de Long.W, [Coordenadas geográficas de Guimarães-MA], onde permaneceu por dez noites antes de retornar para Bremerhaven, na Alemanha. Conta o diário, ainda, que a partir do segundo dia após a chegada à costa brasileira, “frauBraun, entediada e aborrecida [O termo usado no artigo é ärgernen] com o ambiente de reclusão submarina, pedira que, de noite, um bote a levasse à alva praia que ela mesma visara pelo telescópio. Iria para banhar-se e caminhar um pouco. O sargento Klauss Shöenner e dois grumetes todas as noites se encarregavam dessa operação. Para não perderem o rumo, às escuras, o submarino emergia por alguns instantes e focava um farol em direção à praia. Em seguida, deixava uma bóia luminosa no local onde emergiria uma hora depois para recolher o bote e seus ocupantes. Em uma dessas idas à praia o sargento Shöenner, que fora marinheiro na Baía de Biscaia e falava um pouco o português, pois havia ido ao mar em pesqueiros lusitanos, manteve contato com um pescador de nome Coutinho, que arrastava camarões na praia. Este, no dia seguinte, forneceu à tripulação do bote dois cestos [korb] de camarões e peixes secos que fizeram a delícia do casal na viagem de retorno à Europa. Diz-nos mais o Dr. Krügger que, ainda como consta do diário de bordo, durante esse quase mês fisicamente ausente da Europa, Adolf Hitler manteve contato permanente com seu Estado Maior através do rádio do SS-199, em código cifrado, tendo por esse meio comandado o massacre dos membros do Círculo. Nestes incluídos, entre mais de uma centena de pessoas assassinadas na mais cruel orgia de crimes da II Guerra, o conde Von Moltke, o coronel Stauffenberger, o marechal-de-campo Von Witzliben e o celebre marechal Beck, que teve permissão para o “suicídio”.

                   Sessenta e cinco anos são passados. Pouco em termos de tempo histórico. Mas suficientes para o definitivo desvendamento do mistério do “Monstro de Guimarães”. Era o submarino de Adolf Hitler. Quem suspeitaria.

* Joaquim Itapary - Jornalista, Escritor e Historiador, é maranhense, residente em São Luís. jitapary@uol.com.br



VAMOS CHAMAR O VENTO

                   O Maranhão é terra de grandes águas, de marés enormes,  de rios cujas águas pacientemente demoram em longos cursos, de um rosário de lagos e lagoas de águas quietas, perenes espelhos das aves, de chuvas grossas como cortinas pesadas que, de repente, transmudam em noite o meio dia. Do mesmo modo, somos uma terra de ventos que nos assediam ventos fortes, rijos e constantes, ao correr do comprido litoral que se estende do Pará ao Piauí. São ventos benditos que refrescam manguezais, espargem os cristais das dunas, deslizam rasteiros nos campos baixos, eriçam a rude cabeleira das palmeiras, defloram intricadas matas imiscuindo-se pelos avarandados dos rios, sobem colinas e alimpam as mesetas dos planaltos nas altaneiras terras sertanejas. Quando os ventos amainam por momentos basta chamá-los com um assovio para que eles logo assoprem com força, assim como fazem os pescadores da canção de Caymmi e os nossos barqueiros e empinadores de papagaios e jamantas.

          Todavia, não circulam aqui notícias sobre o efetivo aproveitamento da energia eólica para uso doméstico ou produtivo. Nem sequer se ouve falar nesse assunto. Pobres, aliás, pobríssimos, desvalidos de quase tudo o que não venha de Deus, calados e renitentes no silencio como costumam ser o miseráveis, ainda permanecemos condenados ao pagamento da tarifa de eletricidade mais cara do Brasil. Paulistas, ricos, compram eletricidade mais barato que nós. E tudo indica estarmos muito distantes ainda do ingresso na etapa do uso de energia limpa e de baixo custo final, já iniciado há bastante tempo pelo Brasil afora. O que já é visível e bem-vinda realidade em Estados próximos, e até outro dia mais pobres que o nosso, como o Ceará, onde, de modo exemplar, funcionam grandes parques eólicos, o uso do vento para produzir eletricidade ainda não ultrapassa, entre nós, o nível de tímidos ensaios acadêmicos, no mínimo anacrônicos. Dá até para lembrar o incipiente cata-vento da casa dos meus pais, lá em São Bento, na década de 40 do século passado, que tanto bombeava a água do poço como, mediante um pequeno dínamo, mantinha carregadas as baterias do rádio Zenith e do motorzinho de luz.

                   No exterior, quem sobrevoar o arquipélago de 400 ilhas, entre elas Fym e Sjaeland (Zelândia), onde se localiza Copenhagen,  capital da Dinamarca, entre o Mar do Norte e o Báltico, não deixará de contemplar um quase interminável cordão de turbinas eólicas implantadas dentro de águas relativamente próximas da costa. Essas turbinas contribuem com apreciável percentual da eletricidade necessária para o suprimento do país cujas necessidades são satisfeitas mediante o uso cada vez menor de energia gerada por fontes poluentes do meio-ambiente - como as termoelétricas. Naquele país, situado quase nas cercanias do círculo polar ártico, cuja população desfruta do maior índice de desenvolvimento humano do Globo (IDH), 85 mil moradias – mais ou menos 450.000 pessoas -, têm a sua demanda de eletricidade para iluminação, funcionamento de aparelhos domésticos e para conforto térmico, inclusive aquecimento, atendida com energia proveniente da queima do lixo domiciliar e urbano em grandes centrais térmicas, de baixo custo e não poluentes. Do mesmo modo, turbinas assim, a modo de gigantescos cata-ventos prateados dotados de enormes hélices, estão enfileiradas na linha de cumeada das montanhas do norte da Inglaterra e da Escócia, nas praias e planícies da costa da Normandia, no litoral da Galícia, nas terras altas da Espanha, no topo das serras e nas encostas das praias portuguesas. Enfim, o mesmo se vê em praticamente todas as nações européias.  Ninguém tem mais dúvidas sobre a eficiência e desse sistema que, além de custo bastante inferior ao operado por sistemas convencionais (hidro ou termoelétricos) é uma das formas mais limpas e seguras de geração de energia disponível no estágio atual de desenvolvimento da tecnologia mundial.

         Enquanto isso, o Maranhão está muito distante, lá na rabeira mesmo, do Ceará, onde ventos do progresso assopram na economia e na sociedade faz umas duas décadas. Na verdade, tudo indica que nós não estamos nem mesmo dispostos a chamar o vento.

 

           Eh, vento!

 

JOAQUIM ITAPARY FILHO jitapary@uol.com.br.               



SAUDADES DA PARADA

            Certa feita, início dos anos 60, um casal de amigos passeava pelos Estados Unidos. Entre outros, tinham por companheiro um maranhense que se iniciava em viagens internacionais. Naquele tempo ainda eram raros os que se aventuravam a tanto. Apesar de em apenas uma semana já haver passado pelas  praias de Miami e de ter mergulhado no burburinho de New York, o conterrâneo já não aguentava as saudades de São Luís. De vez em quando falava em camarão seco com juçara e em bacuri, relembrava a tranquilidade de nossas ruas, as sessões do Éden e o sorvete de leite batido pelo Lúcio, do bar do Hotel Central. Enfim, sentia e reclamava a falta de outras coisas realmente boas que nossa terra já teve. Tinha hora que batia nele uma vontade doida de largar tudo e voltar correndo para o Maranhão. Até que indo assim de ânimo molestado pelas saudades, no décimo dia de viagem programada para vinte, manhã bem cedo do três de setembro, diante do colorido bufê do “breakfast” com presuntos, ovos,  queijos, geléias, frutas e o escambau, ele anunciou aos companheiros de viagem a sua decisão irrevogável: Olha turma, não dá mais para continuar. Daqui a pouco remarco minha passagem. Volto pro Brasil amanhã e pego no Rio o primeiro avião pra São Luís. Disse isso e sentou-se diante de um prato fundo cheio de “cornflakes”. Foi Lourdes quem quebrou o silêncio do grupo ao perguntar a razão de decisão tão peremptória. Então, olhos visivelmente umedecidos pelas lágrimas de sincera comoção, Fernando desabafou: Vocês são uns maranhenses desnaturados, basta saírem do Brasil para se esquecerem da nossa terra. Como é que podem ficar aqui, tão longe de São Luís, sem assistir as paradas do 24 BC e da Polícia na Praça João Lisboa? Não, definitivamente, não dá para agüentar. Disse resoluto e abandonou a sala sem se despedir. No dia seguinte deu adeus à América e se embarcou, sozinho.  
            Faz já uns bons cinquenta anos que não vejo paradas militares. Sempre há e haverá coisa melhor a fazer. Até mesmo fazer nada. Aliás, acho que as festas da nacionalidade devem ser realmente cívicas, isto é, mais civis que militares. Os soldados – minoria de população - que se unam aos concidadãos pelo mesmo sentimento de amor à Pátria, tal como o fazem os franceses durante as comemorações da tomada da Bastilha. Neste ano, juntei cobres e preferi usar o feriadão para conhecer parte da longínqua Escandinávia. Com primos do Rio e fazendo escala em Londres voei para Copenhagen, Estocolmo, Oslo, Helsinki, Tallin, St. Petersburgo e Moscou. Vinte dias fora do Brasil, alguns navegando pelo Báltico, sem a menor saudade da parada militar do 24 e da PM, nem dos buracos e do lixo  de São Luís. Na volta passarei uns dias em Londres, revendo esta cidade alegre e sisuda, com sua aristocrática tranquililidade refletida nas águas do Tamisa despoluído, desfrutando o bucólico clima de seus parques floridos, onde o outono já se anuncia nas folhas que se acastanham e, desprendendo-se das ramadas, bailam no ar em mil volteios antes de atapetarem as trilhas por entre o espesso arvoredo. Sendo certo que Carlyle e Thomas Morus, em belas estátuas na Cheyne Walk, com seus pesados sobretudos a protegê-los do eterno frio londrino, não darão a mínima importância à minha visita. Depois de conferir as novidades em Oxford Street, assistirei no teatro Victoria o premiado musical Billy Elliot. Regressando ao Brasil, com estada de um mês no Rio, darei notícias.

 HYPERLINK "mailto:jitapary@uol.com.br" jitapary@uol.com.br (De Londres)



O CREPÚSCULO DE SÃO LUÍS

        Nas alvoradas e nos crepúsculos, do cimo de um monte, a silhueta de um anjo alado diligentemente vela pelo centro histórico da cidade de Quito, capital do Equador. A seus pés se espraia um velho burgo quinhentista, de monumentais igrejas barrocas, seculares praças e ruas pacíficas, tranqüilas, outrora palco de conhecidas aventuras e inenarráveis tragédias protagonizadas pelos conquistadores espanhóis na América, sedentos de riqueza, fascinados pelo ouro e pela prata.

     A Igreja de São Francisco, com sua  fachada bicolor, e a Igreja da Companhia de Jesus, que representaria o mais perfeito exemplar da arte barroca na América Latina,  com seu interior todo em ouro, ressaltam dos telhados de solares senhoriais, dos conventos, dos prédios públicos, sedes do governo e da municipalidade. Cidade que tem um anjo da guarda velando por si decerto terá alma digna de desvelo, de carinho, de amor. A histórica cidade de Quito, sem dúvida tem uma alma especial. Pois, foi essa estrutura urbana singular, vivificada pelo sopro de alma assim distinta e nobre, que levou a Unesco a declará-la, em 1978, como o primeiro Patrimônio da Humanidade. Logo após esse ato carregado de simbolismo, seguidamente a essa láurea de distinção entre as demais cidades do planeta, o povo de Quito vivenciou vigoroso programa de restauro do seu patrimônio edificado, de modernização e aparelhamento de suas bibliotecas, de seus museus e centros de arte. Para dar exemplo aos concidadãos, o prefeito mudou-se com a sua família para o centro histórico.

        Infelizmente, esse não é o caso de São Luís. Reconhecida a cidade como Patrimônio da Humanidade, o governo do Estado tratou de executar um  programa de revitalização da área tombada pela Unesco. Todavia, no mesmo passo em que esse programa se desenvolvia, ocorreria uma série de fatos estranhamente contraditórios com os objetivos preservacionistas anunciados. Órgãos como a Polícia Militar, a Caema e as Universidades já haviam sido transferidos para fora do Centro Histórico. Mais com pouco, o governador do Estado deixaria o secular Palácio dos Leões abandonado aos ratos e cupins, mudando seu gabinete para o outro lado do Anil. Imediatamente, Regis ad exemplar, cresceu o ímpeto da corrida para fora da velha São Luís. Muitos órgãos públicos imitaram o Chefe e correram para perto dele. Com inusitada celeridade de ação, fugiram do Centro Histórico: a Cemar; as Secretarias de Planejamento, Fazenda, Administração, etc., etc. Os magistrados, apressaram-se e também se fizeram vizinhos do governador, movimento que logo atrairia para a egrégia companhia a Procuradoria de Justiça e o Tribunal de Contas.  Faltava mudar o que? Ah, sim, faltava a excelentíssima e lúcida Assembléia Estadual também materializar o seu do desprezo a São Luís. Então, nada mais falta: ela já está em palácio novo, pertinho de onde o chefe do executivo despacha. Será que o êxodo, acabou? Não, acho que não, porque a atração do poder político é irresistível. Todo mundo que ficar próximo do gabinete do governador, espécie de ovo indez no ninho do prestígio. Outro dia eu soube que desembargadores também estariam inscritos nessa insana corrida. Que fiquem no Centro Histórico o pobre do Bispo (Até quando?) com suas igrejas vazias, os camelôs, os vendedores de churrasquinho de gato, os flanelinhas, os biscateiros, os vadios e as rameiras, pois até os bancos, as grandes lojas, os jornais – este, inclusive - fugiram da parte mais nobre e bela da cidade.

        De modo que, aqui, bem diferente do de outras cidades de gente mais lúcida, o lema dos poderes públicos tem sido o seguinte: Faz o que eu digo, mas não o que eu faço. Lema, aliás, que explicaria a genial e oportuníssima idéia da mudança do gabinete do prefeito do Palácio de La Ravardière, na Pedro II, para o modernoso edifício BEM. Afinal, lá do alto daquele prédio, diariamente, os administradores de São Luís poderão  contemplar, vista franca, sem testemunhas incômodas, o crepúsculo desta desventurada São Luís... carente de um anjo que vele por seu triste destino.

* Joaquim Itapary - Jornalista,  escritor, advogado e ex-ministro da Cultura, é membro da Academia Maranhense de Letras. jitapary@uol.com.br



DO MODISMO DOS VINHOS

            Outro dia li parte de uma pesquisa sobre o consumo do vinho no Brasil. Precedia a matéria opiniões de conhecidas personalidades sobre a bebida. Médicos falavam sobre os benefícios do moderado, mas persistente, consumo diário do vinho tinto para a saúde das artérias, além de outros benefícios que redundariam no prolongamento de nossa vida em alguns anos. Seguiam-se variados depoimentos, inclusive o do compositor e músico Juca Chaves – o conhecidíssimo Menestrel Maldito. Juca, sempre irreverente, esbanjava ironia ao comentar como, num abrir e fechar de olhos, o consumo de vinho no Brasil  se tornou verdadeiro modismo,  usual exibição de pretenso “status” social elevado, especialmente entre aqueles da chamada classe “emergente” da sociedade. E dizia, em outras palavras, gostar de vinho simplesmente porque gosta. Sem essa frescura de chocalhar o copo,  cheirar e bochechar antes de beber. E arrematava: “Dizem os metidos a enófilos que se deve chocalhar o vinho para soltar a sua alma; acontece que não acredito em alma.”

            Técnica antiga, o uso da uva para a vinificação consta dos mais velhos testemunhos da história da humanidade. Todos conhecemos o celebre episódio bíblico da embriaguez de Noé, o patriarca escolhido para salvar do dilúvio os eleitos de Deus. Portanto, sobre ser benéfico para o sistema circulatório do homem, tomar uns tragos moderados desse elixir da vida não contraria preceitos cristãos. Em minha família fomos criados vendo o vinho sobre a mesa. Que toalha branca sem mancha de vinho não é portuguesa.

             Lembro de uns garrafões escuros, bojudos, tampados a cortiça e lacre, enterrados no porão do solar da Gonçalves Dias. Vinham da Ilha da Madeira e, porque consumidos moderadamente, não raro oxidavam sendo aproveitados para uso culinário. Na família de minha avó Genoveva, madeirense, há um irmão seu (meu tio-avô, portanto), chamado João Bianchi de Sales Caldeira, que presidiu a Comissão Antifiloxera do Funchal.  A filoxera é um inseto que ataca as videiras. Praga temível pelos viticultores de todo o mundo, capaz de danificar das raízes até as folhas das videiras. Daí o seu nome científico: phylloxera vitifoliae. Além de presidir a comissão que extinguiu essa praga nos vinhedos madeirenses, deve-lhe a vitivinicultura daquela ilha do Atlântico a introdução e cultivo das vinhas americanas refratárias à ação desse inseto, bem como a propagação de novos métodos e processos de enxertia. Assim, esse meu tio-avô, falecido em 1883, no sítio da Madalena, Freguesia de Snt° Antônio, perto do Funchal, deixou o nome da família definitivamente associado a um dos mais famosos e raros vinhos do mundo: O Vinho Madeira.

            Ontem, lendo alguns trabalhos vencedores do Primeiro Concurso Nacional de Poesia Sobre o Vinho,  promovido pela Universidade de Caxias do Sul, terra de razoáveis vinhos brasileiros, dei com uns bons versos de  Antônio Olivier, sob o titulo “Oitavinha”, à moda de Camões:

            “As pipas e os tonéis enclausurados,
            Corotes e botelhas soberanas,
            Garrafas e pipotes encerados,
            Adegas e bodegas sobre-humanas,
            O doce vinho, enfim, rubi molhado
            Que bom, alegra a pobre vida humana,
            Cantando, louvarei por toda parte,
            Que o mote nem requer engenho e arte.
           
            Encerro como a velha Almerinda Vale, na casa da minha avó, sempre terminava as histórias que nos contava, na hora de dormir:  Entrou pela boca do pinto, saiu pela boca do pato, o rei senhor me mandou aqui parar o relato. Porque mantenho boa saúde e os médicos recomendam, apresso-me para abrir a garrafa do jantar e repito em silêncio, comigo mesmo, a frase-dístico com a qual sempre antecedo o primeiro gole: Ó nobre Baco ajudai-me a não perder esta boca!
                             Pois, cantemos como cantam os espanhóis nas tabernas: Quem bebe dorme; quem dorme, não peca; quem não peca vai pro céu; e posto que ao céu vamos, bebamos!

* Joaquim  Itapary - Jornalista, Escritor e Advogado, é ex-ministro da Cultura, residente em São Luís. (jitapary@uol.com.br).


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