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Ricardo Noblat 





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O Livro das Bem-Aventuranças e do Pai Nosso

                  Este é o segundo livro que comento do escritor, padre e teólogo ortodoxo francês Jean-Yves Leloup. O primeiro foi “Uma Arte de Amar para os Novos Tempos”.

                   Recordando, Jean-Yves Leloup além de religioso, tem doutorado em filosofia e psicologia. Dirige cursos de antropologia fundamental na Europa, Estados Unidos e América do Sul, em diferentes universidades e institutos de pesquisas. É autor de mais de trinta obras de referência sobre as origens do cristianismo.

                   Este livro nos leva a uma profunda reflexão sobre a antropologia do desejo, para tentar aproximarmo-nos de uma possível felicidade. Paralelo a esse conceito, com compreensão metafísica, há, ainda, a recitação do Pai-Nosso, cuja oração, quando evocada, faz rezar o mundo inteiro. Do mesmo jeito que chamamos Deus de Pai, Ele também nos chama pelos nossos nomes, nos retirando por inteiros da matéria cósmica, para nos fazer existir como sujeitos.

                   E é Jean-Yves Leloup que diz: “A doutrina cristã fala muito de pecado original e pouco de beatitude original. Existe em nós uma confiança que é mais profunda que todos os nossos medos. Esta confiança chama-se, em diferentes linguagens: a beatitude original, a confiança original, o ser essência, o eu sou. E nenhuma destas palavras é suficiente para designar esta realidade. O paraíso perdido é a confiança perdida. Maria, a mãe física de Deus, nos revelou a confiança original, o sim original. Existe em nós um sim mais profundo que todos os nãos”.

                   Talvez dessa fonte filosófica e não religiosa, porque ele se confessa ateu, serviu-se o escritor português José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura) para sentenciar no seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. Essa sentença do autor de “Memorial do convento” é um convite à reflexão.

                   Há uma visão platônica a revelar que nós não aprendemos e sim, recordamos. Trata-se, portanto, do Ser que me faz ser. Este complicado conceito, mais profundamente compreensivo nas profundezas do íntimo, merece uma reflexão densa, talvez a nos envolver, quem sabe, a um retrocesso de vidas passadas, que algumas religiões fogem sem dar explicações.

                   Necessário nos faz lembrar aqui, não as bem-aventuranças naturais, mas as bíblicas, que são estas: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque o Reino dos céus é deles (esta beatitude é, às vezes, difícil de compreender, porque Jesus nunca compactuou com a miséria, no sentido material; entretanto, se quisermos ser felizes é necessário que tenhamos um espírito de pobreza. Para que tenhamos dúvidas dissipadas sobre essa colocação, seria de bom siso ler-se “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber); Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados: Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. Esses termos de boas venturas eram costumeiros entre os essênios, sendo que o próprio Jesus era um deles.

                   A humanidade está presente na recitação do Pai-Nosso, a qual, segundo Leloup, “expressa todas as dimensões do desejo, porque manifesta o desejo do alimento, o desejo da liberdade, o ser capaz de perdoar, o desejo de ser libertado do sofrimento, de não se deixar levar pelas provações, o desejo de que reine em nós outro passado em nosso inconsciente. Há todos estes desejos que se expressam e que se enraízam na humanidade de Cristo”.

                   Por fim, existem dois textos no Novo Testamento sobre essa recitação que o Senhor nos ensinou, um de Mateus (Cap.6: 9-13), e outro de Lucas (Cap.11: 2-4), o primeiro, com o título de “O Sermão da Montanha”, representa a comunidade judaica, e o segundo, a comunidade grega. Eu, sinceramente, prefiro o texto de Mateus que substitui “ofensas” por “dívidas”, “tentação” por “provação” e “mal” por “maligno”, como nos ensina a Bíblia de Jerusalém, fazendo acrescentar no final da recitação, que são dele, Pai, “o Reino, o Poder e a Glória, para sempre”.

 

                                  Tenham todos uma Feliz Páscoa!

                 

 

 



Prece a um amigo morto



                   Diz Guimarães Rosa que “o homem não morre, se encanta”. Em sendo assim, confesso que nada pude escrever depois que a luz se envolveu no estar-se inerte de Nonato Cruz, meu irmão em espírito e meu querido amigo de mais de quarenta anos, já que esses mesmos laços em nossas famílias se estendem por raízes centenárias.

                   Convivemos juntos, ultimamente, em Brasília, aonde dividimos tristezas e alegrias por conta da esperança...

                   Depois do que fora abruptamente anunciado, preferi apegar-me ao socorro do poetinha Vinícius de Moraes, vez que a prece que imaginei recitar-lhe, minha emoção travou no caminho de volta para o meu pé-de-serra.

                   Eis o que diz o cancioneiro:

   

“Tenho  amigos que não sabem  o quanto são meus  amigos. 
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

 A  amizade é um sentimento 

mais  nobre do que o amor, eis que permite  que o objeto dela se divida em outros  afetos, enquanto o 
amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. 

E  eu poderia suportar,  embora não sem dor,  que 
tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem 
todos os meus amigos! 
 
 Até  mesmo aqueles que não  percebem o quanto são  meus 
amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
 

A  alguns deles não procuro,  basta-me saber que eles  existem. 
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. 
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não 
posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

 Muitos  deles estão lendo esta  crônica e não sabem 
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. 
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E  às vezes, quando os  procuro, noto que eles  não tem 
noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu 
equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, 
construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. 

Se  um deles morrer, eu  ficarei torto para um  lado. 
Se todos eles morrerem, eu desabo! 
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. 
E me envergonho, porque essa minha prece é, em 
síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
     
 Por  vezes, mergulho em pensamentos  sobre alguns deles. 
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, 
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ...
 
   
Se  alguma coisa me consome  e me envelhece é  que a 
roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando 
comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus 
amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber 
que são meus amigos! 
 

 A  gente não faz amigos,  reconhece-os.” 

 

Nonatinho, "Ad Imortalitatem"


O PODER PROSÁICO DE J.J.VEIGA

                   O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.

                   A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a idéia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.

                   Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?

                   Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.

                   Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.

                   Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.

                   Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre , não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.

                   A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto:

                   — Sua mãe está pedindo um padre.

                    Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.


José J.
VeigaJosé Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) era goiano de Corumbá de Goiás, uma pequena vila a 150 quilômetros de Goiânia, e dizia dever a escolha de seu nome literário à ajuda de Guimarães Rosa que, com argumentos numerológicos e estilísticos, sugeriu José J. Veiga, na altura da publicação do livro de estréia "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959. Seu romance "A Hora dos Ruminantes" foi publicado em 1966. Livros do autor: "Sombras de Reis Barbudos", "A Máquina Extraviada", "Objetos Turbulentos", "De Jogos e Festas", "A Usina Atrás do Morro", "Aquele Mundo de Vasabarros" e "Os Pecados da Tribo", entre outros. Traduziu diversas obras de autores estrangeiros.

Teve seus livros lançados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Morreu no Rio de Janeiro, onde viveu por 49 anos..

O conto acima, que consta do livro "Os Cavalinhos de Platiplanto", publicado pela Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1981, foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág.186.

                                                ***

* Fernando Braga é poeta, ensaísta, cronista e membro da Academia Barra-Cordense de Letras.

 



LITANIA NECESSARIA

                   Desde minha volta de São Luís, no ano passado, depois de trinta e três anos de ausência, com bissextas interrupções que nunca passaram de uma semana, jamais pude, naqueles interstícios, aperceber o que realmente girava em torno do cacto entre o pensamento e a realidade, entre o impulso e a sombra, para ser mais preciso com a construção semântica de T.S. Eliot.

 

                   Até aquele tempo, ou por todo o tempo das minhas inconstantes incursões a São Luís, já me passava a idéia de que não mais reconhecia os meus fantasmas e nem o meu passado era mais meu companheiro, assertiva já minha familiar através da genialidade de Mário de Andrade, mas que nunca procurei aprofundar-me em razão da passagem do tempo em sua dimensão veloz. O abandono, a mordaça, a tristeza e a desesperada aparência de humilhação, foram os primeiros sentimentos que tive de São Luís quando a revi. Um sintoma maior foi se intensificando com o passar dos dias, como se me assomasse uma reação metafísica. Muito simples: os amigos que nunca tiveram de migrar, não tinham olhos de ver o que eu via. Recolhi-me e fiquei quieto.

 

                   De repente, tive a gratíssima satisfação de receber de Arlete Nogueira da Cruz, amiga querida de muitos anos, o seu livro “A Litania da Velha” que me chegou com a precisão de uma navalha cartesiana. Aí sim, estava naquele livro de Arlete a resposta de toda minha angústia, com a senha que eu esperava, disparada no fôlego deste verso, como se feito de relâmpago, genuinamente insular, a guardar em seu fôlego e em seu filtro os signos e os símbolos de todo livro:

 

                           “A antiga cidade é uma Ilha que se desfaz em salitre”

 

 

                   Sob meu olhar, o épico de Arlete Nogueira da Cruz encontra-se sintetizado nesse “dístico de ressonância bíblica” como entende Ivan Junqueira. Este versículo arrancou de minh’alma toda a elegia da Ilha em sua mais profunda decadência, toda estamparia que até então me nodoava os sentidos entre o que seria real e imaginário.

 

                   E mais. Pressenti Arlete a queimar as palhas dessa ladainha, como se agradecesse de modo próprio sua abnegada entrega (corpo, alma e espírito) à mortificação da arte que sabemos divina e estéril; queimou-as ainda em louvação às contas de muitos terços debulhados por desafios e conquistas, vitórias e intemperanças, e ainda por participar como candeia, e não poderia ser diferente, na construção dolorosa e sempiterna de uma obra que ainda explode no grito sintático e libertário de Nauro Machado, seu marido e poeta, exilado nos ergástulos da província, a pagar um terrível preço por ter tido a coragem de sustentar com os miolos das rosas de um pão maligno, a materialização onírica de sua maldição; e ainda, por derradeiro, a equilibrar no prumo da vida, com o carinho e a formação necessários, seu filho, essência querida e única de sua eugenia, como se fizesse ecoar, com ênfase, aos quatro cantos da Ilha, e além dela, a grandeza do axioma famoso:

 

                                        “Olha para o Céu Frederico”.

 

 Ambos, pai e filho são organizadores da bela edição do livro, que além do canto épico de Arlete reúne fotos e produções gráficas.

                  

                   Afigurando-se-me o sentido, como se assistisse o velho sobrado desmoronar-se, e não ser atingido por estar distante da queda, mas sabê-lo disforme em monturos, clareia-se irremediavelmente a idéia de que em qualquer tempo, desde que ocorra a fragilidade humana,

 

                        “As antigas alcovas se cobrem em cloacas

                                  na incontinência dos restos” 

 

o que degrada de maneira dolorosa o intimismo mais sagrado de quem ali viveu emoções naturais à psique humana, emoções que por tantas vezes foram remetidas ao senso lúdico como correspondente ao complexo de eternidade construído pelo homem como forma de compensá-lo quando diante da dolorosa e terrível certeza da irreversibilidade do fim.

 

                   A velha é o rosto da cidade, da Ilha humilhada, esquecida e tragediada, a mendigar à toa, sem mais forças para o ganho, maltrapilha, a esquecer-se até das chinelas às portas sem portas do tugúrio malsinado em que viveu um dia e que agora fora transformada, a vislumbrar apenas um resto de vida a correr-lhe à flor da pele e do já quase húmus:

 

              “As veias lhe saltam sob a pele das mãos como afluentes sem rumo’”.                        

 

                    São essas verdades vividas no canto de Arlete Nogueira da Cruz, as quais, talvez, pelos sentimentos que nos confinam, vieram amenizar minhas angústias com a certeza de não ter eu aportado nos umbrais do Quinto Império, cantado pelo nosso Vieira, em razão das prédicas do profeta e profano sapateiro Bandarra, o que logo me foi iluminada pela sentença carpediana de que morreram todos... dizem os cadeados nas cancelas.

 



CORDEL, A VERDADE VERDADEIRA

 

                   Cordel deriva de coração e, talvez por isso, é a mais legítima tendência literária brasileira.

                   Assemelha-se essa nossa manifestação cultural com a antiga tradição do verso cantado originário da Provença, onde o trovador com seu instrumento, uma espécie de bandolim, com quatro cordas, encantavam à castelã nos requintes dos salões em presença de convivas ou nas sacadas de varandas e balcões onde a bem-amada se punha a escutá-lo.

                   Aqui no Brasil, no Nordeste, em particular, o cantador empunha sua viola e no acorde de uma nota só tira seus repentes a partir de um mote ou de um desafio. Geralmente são versos sextilhados, com rimas entrelaçadas, a 1ª com a 3ª e a 5ª, e a 2ª com a 4ª e a 6ª, geralmente tendo o fecho de cada estrofe imagens fortes em referência ao tema glosado.

                   O poeta no cordel dispõe de uma liberdade verdadeira. Há nessa modalidade literária uma licença métrica e, esta é feita de ouvido, como se diz, de acordo com o ritmo já impregnado no cérebro do cantador, caindo as rimas nas palavras quase sempre tônicas, percebendo-se, às vezes, nas rimas, um toque de quase perfeição, notando-se ainda em toda incursão do verso o uso do enjambement, que é um recurso poético que o artista se vale em completar no verso seguinte o que faltou no anterior. Isso ocorre instintivamente, sem que, para tanto, valha-se seu construtor de algum conhecimento literário ou teoria a respeito.

                   Para falar em cordel, tive a alegria de ser amigo do poeta Rogaciano Leite, pernambucano de São José do Egito, depois integrante da Última Hora, de São Paulo, onde ganhou o Prêmio Esso de Reportagem com o trabalho “O Mundo amargo do açúcar”, e um dos maiores repentistas que conheci, de encher o teatro Arthur Azevedo, em São Luís, onde passava tempos a fio a dizer versos com mote solicitado à platéia. E Rogaciano, assim, era aplaudido de pé por uma platéia exigente e de bom gosto como se sabe ter sido a de São Luís naqueles tempos memoráveis. Vi-o algumas vezes em companhia de meu pai (um lusitano do porte espiritual de Fran Paxeco), e ao lado, ainda, de Amaral Raposo, Erasmo Dias, e outros luminares das letras desta Ilha rebelde e culta. A casa era cheia e o poeta, no palco, era um ator a exercitar seu dom divino. Rogaciano Leite tinha sido aluno do cego Aderaldo, mestre consagrado e respeitadíssimo nas plagas cordelistas destes brasis afora. Vem daí minha admiração pela poesia de cordel, pelo cantador a tirar na viola aquelas modas que reputo como preciosas dentro do nosso contexto literário, o que não faz a poesia grande para caber dentro de poucas estrofes, mas justamente o contrário, as estrofes pequenas para caberem dentro de tanta poesia e de tanto talento.

                   Pois bem, fruto dessa estirpe de artista coloca o poeta, etnólogo, sertanista e também repentista Olimpio Cruz que, sendo um dos sonetistas tão perfeitos quanto Rogaciano, acostumado a tecer as sedas dos alexandrinos decassilábicos, verseja também no cordel, com a mesma desenvoltura dos nossos irmãos das praças de Caruaru ou de Piancó, com ou sem viola, mas com a essência e com o sentimento mais profundo que expressam a emoção do nosso homem simples, do nosso caboclo da caatinga ou do serrado, do nosso sertanejo, enfim, desse homem que trás consigo na alma o timbre maior de nossa raça.

                   Neste livro “Relatório Sertanejo - Barra do Corda no Cordel de Olímpio Cruz”, que agora é publicado postumamente pelas mãos engenhosas do jornalista Nonato Cruz, filho do poeta, conta a história de Barra do Corda, situando famílias e homens numa narrativa inteligentíssima e caricatural, dentro do contexto social, político e econômico da cidade, não só ao tempo da elaboração do trabalho, mas no exercício pretérito, o que nos faz meditar na memória privilegiada que o poeta tinha fruto também de sua condição de anjo.

                   Olimpio Cruz com as mesmas mãos fidalgas de um aristocrata sonetista de salão e sarau, do porte de Maranhão Sobrinho, de Inácio Xavier de Carvalho e de Assis Garrido, tem o poder ou mesmo a magia de se transformar, não mais que de repente, num cantador-violeiro de Feira e  Mambembe. Por isso, no que me cabe observar, a marca do gênio se projeta exatamente aí, nessa gama diversificada de aptidões a gravitar genuinamente em torno da poesia, que nada mais é do que o espírito da palavra trabalhada, usada pelo homem por direção de Deus. E Olímpio Cruz, na sua simplicidade santificada tinha esse registro divino.

                    

 

 

                             

 

                  



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