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Blog do Colunista

Ricardo Noblat 





Nosso provedor

 

 CULTURA

O AMOR CAPITALISTA

Foi lançada na quarta-feira de Cinzas a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, com o tema Economia e Vida, organizada pela CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil abordando o lema, “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”(Mt. 6:24). Por este motivo, nos convida a refletir melhor o que representa o dinheiro para o homem.


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BARRATERRA, DO SONHO À REALIDADE

                            Há exatos trinta anos, nascia em Brasília, mais precisamente na cidade satélite do Guará I, o Grupo de Teatro Barrraterra, idealizado pelo sonho de quatro jovens barra-cordenses: Anísio Filho, Roberval Freedman, Francisco Brito (foto) e José Berocan, residentes na época na capital do país.

                            Movidos pelas reminiscências e das experiências dos circos que passavam temporadas  na terra natal, nos anos 70, a idéia do grupo era ser formado somente pelos filhos de Barra do Corda ou maranhenses radicados no Distrito Federal e, representar a peça, E o Céu Uniu os Dois Corações, de autor desconhecido, apresentado em terras cordinas pelos grupos de teatro circenses. No entanto, o  Barraterra desde a sua criação até suas últimas apresentações nos palcos guaraenses, passou por algumas formações agrupando na trupe, mineiros, goianos e brasilienses.

                             Como todo e qualquer projeto cultural, o GTB passou, desde seu início, por inúmeras adversidades em sua curta e meteórica existência. Das críticas dos conterrâneos mais incrédulos, às dificuldades de adquirir um espaço para suas reuniões e ensaios. Recorremos ao Centro de Desenvolvimento Social-CDS do Guará II, e depois de várias reuniões, a sua diretora nos cedeu uma sala, para nos reunirmos aos domingos. Já tínhamos a peça, o local, o material humano. Só nos faltava o diretor. Foi quando  surgiu o intelectual Bené Martins. Além do apoio incondicional do advogado Edésio Cordeiro, na divulgação e sua irmã Lúcia, nos cenários. E aí, tudo começou efetivamente. 

                             Dos vinte e sete integrantes do grupo, registre-se, todos amadores, e das duas peças encenadas, Pedro o Lenhador, de Moliére, e de Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta,  uma comédia dos personagens de Maurício de Sousa, adaptados para a obra do multifacetado William Shakespeare, escrita pelo teatrólogo pernambucano, Edmundo Santos Pereira, conhecido artista na dramaturgia brasiliense dos idos de 1980, apenas oito componentes permaneceram até o seu completo desaparecimento das cenas teatrais.

                              Depois de quase um ano ensaiando a peça, O Monstro Que Se Chama Fome, do companheiro Edmundo Pereira, retratando a miséria dos retirantes nordestinos, o Barraterra estreiou com Pedro o Lenhador, o pequeno drama, dividido em dois atos,  em 1981 no palco do Centro de Ensino de 1º Grau,  localizado na QI 1, por ocasião da realização do I Concurso de Poesias, promovido pelo Movimento de Integração Maranhense-MIM,  o grupo não parou mais. Recebeu inúmeros convites para representar em algumas cidades-satélites, além de participar de encontros culturais e concursos de teatro amador no DF.

                              Seguidos seis meses de ensaios, representou a comédia-adaptação shakesperiana, Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta, no teatro do Centro de Ensino de 2º Grau do Guará II, situado na QI 19. Foi sucesso de público e de crítica. Tendo sido encenadas várias vezes. Vale lembrar, que todas as apresentações do grupo, teve a direção do poeta, Olímpio Cruz Jr.,  uma vez que, o saudoso Bené nos deixou ainda na primeira fase.     

                              Em 1982 após a saída de alguns integrantes, por motivos pessoais, o grupo não resistiu e acabou por se dissolver. No entanto, ficou a certeza de ter cumprido sua missão, enquanto fôlego teve. Paralelo às atividades do MIM e dos jornais Pausa e posteriormente o Alternativa, o Barraterra foi o único grupo teatral a encarar o desafio de representar, não somente os personagens na ficção, como também alterar o cotidiano dos maranhenses radicados no Planalto Central,  tão carente na época, na busca por uma identidade cultural e de entretenimento na fria e solitária Brasília. 

* Francisco Brito - Poeta, Cronista e Teatrólogo barra-cordense, residente em São Luís. 



OS GUARDIÃES DA CULTURA BARRA-CORDENSE

                             Recentemente, estive em Barra do Corda para rever parentes e amigos, participar de uma reunião na Academia Barra-Cordense de Letras, e claro, descansar “que ninguém é de ferro!”. Por oportuno, não irei descrever  as belezas exuberantes dos rios Corda e Mearim que, mesmo agonizando pela sujeira indiscriminada, ainda subsistem.  Muito menos da política local e de seus impiedosos políticos. Em contrapartida, a cidade continua linda! Esbanjando sua natureza imponente. Inigualável.  

     Entretanto, quero destacar  alguns personagens, que mesmo quase no anonimato, conseguem emergir a cultura do povo barra-cordense. São seres cognominados de notívagos culturais.

                              Tâmara Ribeiro, nossa secretária em dose dupla: uma guerreira incansável estando à frente da Secretaria de Cultura do Município e da Secretaria Geral da ABL. Além de ser dona de casa e mãe, desvencilha-se do “calvário” das adversidades e concilia as duas pastas com zelo e amor.

                              Álvaro Braga, um sujeito “made in” Ceará. Destemido e desbravador. Máquina fotográfica à mão, clica tudo ao seu derredor. Uma espécie de “repórter”  fotográfico e “arquivo ambulante” que vagueia pela cidade à cata de raridades do mundo da fotografia. Um gentleman, quase extinto naquela urbe desbaratada.

                              Juraíza Bílio, batalhadora e persistente, como todo artista que resiste à mídia avassaladora globalizada. Aclamada por unanimidade nos quadros do sodalício cordino, dedica-se, quase que exclusivamente, a reorganizar arquivos, atas e demais afazeres dentro da Academia.

                              Tereza Alves Reis, carinhosamente conhecida por dona Terezinha, aquela senhora de 77 anos é um exemplo maior de amor à terra. Sensibilidade e doçura quando defende o antigo local, hoje de sua propriedade, que funcionava o primeiro aeroporto de Barra do Corda. Observamos que aquela casinha de madeira, com os cupins expostos, necessita de urgentes cuidados.

                              Juarez Santos, homem de aparência tímida e peculiar humildade, chega ao entardecer para regar com a alegria estampada em seu rosto, as plantas do jardim da Academia. Há 15 anos passa as noites em claro, para salvaguardar o prédio e o patrimônio ali existentes.

                              Nonato Silva, o maior intelectual vivo barra-cordense.. Laureado com inúmeras honrarias, nos telefona em meio à reunião, preocupado com o acervo de 3.000 livros, doados generosamente de sua coleção particular, para a instalação da biblioteca na Academia.

                               Heider Moraes, um dos pioneiros do jornalismo  da Colônia barra-cordense em Brasília. Dedicação e amor pela terra natal. Capitanea há mais de 20 anos o jornal Turma da Barra.

                               Nonato Cruz, uma longa e incansável estrada percorrida na comunicação social e poesia. Tendo contribuído na política cordina. Mesmo com a saúde comprometida, comanda a Rádio Rio Corda FM e o jornal eletrônico de mesmo nome.

                               Marcos Pachêco, ex-deputado, ex-vice-prefeito, médico, advogado e professor  universitário. Apresenta-nos um projeto ousado no resgate pela cidadania do povo cordino.

                               Eduardo Galvão, mesmo distante do país, reside na China, não consegue esquecer suas raízes. Um grande incentivador das boas causas  dos seus conterrâneos injustiçados.

                               Além de poetas, escritores, jornalistas, pintores, enfim, aqueles que contribuem direta ou indiretamente, para o desenvolvimento de Barra do Corda. Podemos afirmar, que são heróis de uma batalha sem fim. Por tudo isso, haveremos de presenciar no futuro próximo uma justiça social igualitária e irrestrita.

* Francisco Brito - Poeta e Teatrólogo, é membro da Academia Barra-Cordense de Letras.       



A SÃO LUÍS DO MARANHÃO

* José Martins D'Álvarez

       

“Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá”,
isso é lirismo de poeta,
a gente pensa de cá!
Mas, ao penetrar-se em barcos,
na Baía de São Marcos,
vemos que há mesmo
palmeiras,
e muitas palmeiras lá.

E emoldurando as palmeiras,
há jardins verdes, floridos,
ruas que sobem ladeiras,
azulejos e vitrais...
Poesia dos tempos idos;
chafarizes esquecidos,
romances adormecidos
em solares coloniais.

E na fronde das palmeiras,
há mesmo alados cantores,
enlevos dos sonhadores,
ternura dos namorados...
Dos platônicos mancebos
que se ficam nas calçadas
a acenar para as donzelas
nas janelas dos sobrados.

“Minha terra tem primores,
que tais não encontro eu cá;”
velhos fortins dos franceses,
igrejinhas seculares:
Carmo, Remédios, a Sé
Mãe das primeiras Missões!...

De cujo púlpito Vieira
plantou a fé brasileira,
com a augusta sementeira
de seus famosos Sermões.

Tem recantos encantados,
de um bucolismo sem par;
Sacavém, Ponta d’Areia,
São José de Ribamar...
o velho farol de Alcântara,
o bumba-meu-boi do Anil
e outras relíquias da história
pitoresca do Brasil.

Tem aquela preta velha
da Rua dos Afogados,
que foi preada em Angola,
deu bons preços nos mercados...
foi tudo para os senhores...
amargou de mão em mão
e traz, na pele, gravado
o drama da escravidão.

Tem o português “dos secos”
e o português “dos molhados”,
tem o turco “dos retalhos”
e o turco “dos atacados”,
tem a “pipira” morena
lá da rua do Alecrim,
que aos domingos, toda chic,
vai fazer seu pic-nic
e à noite em Campo de Ourique,
quem paga tudo é o Joaquim.

“Nosso céu tem mais estrelas”
na noite calma e deserta...
infinita porta aberta
para um mundo de poesia!
“Nossas várzeas têm mais flores”,
além das rosas meninas
que florescem nas esquinas
da Praça Gonçalves Dias.

“Nossos bosques têm mais vida”
na magia feiticeira
dessa Atenas Brasileira
de artistas e pensadores.
Graças à luz expendida
por uma extirpe luzida;
“Nossos bosques têm mais vida,
nossa vida mais amores.”

“Em cismar, sozinho, à noite,
mais prazer encontro eu lá;”
pela Praça João Lisboa,
recitando o “Marabá”,
ao longo da Praia Grande,
no botequim da Sinhá,
tirando gosto da pinga
com refresco de cajá,
ouvindo ao luar de prata
acordes de serenata,
com trovador e com flauta,
com violão e ganzá.

“Não permita Deus que eu morra,
sem que volte para lá;”
sem que carregue, contrito,
o andor de São Benedito,
na bênção que ao povo aflito,
em procissão, ele dá;
sem que ainda prove pequi,
cupuaçu, bacuri,
cambica de murici
e um bom arroz-de-cuxá...

Quero morrer, na verdade,
na minha velha Cidade,
namorando a antiguidade,
numa rede de algodão...
Dando um adeus ao passado,
um viva a Pedro II,
na melhor terra do mundo,
São Luís do Maranhão.

NOTA DA REDAÇAO:
  
* José Martins d‘Alvarez é cearense de Barbalha, e vive (ou vivia) no Rio de Janeiro. Romancista, poeta e jornalista, residiu por algum tempo em São Luís, deixando desse convívio com a cidade o poema São Luís do Maranhão, o qual publico hoje nestes apontamentos.



NEM AOS MORTOS SE RESPEITA MAIS

* Joaquim Itapary

                   Malgrado suas belas e senhoriais cidades, jóias de ouro e prata da arquitetura espanhola na América do Sul, a singularidade de sua culinária soberba – com seus peixes e crustáceos saborosos, suas mais de trezentas variedades de batatas e dezenas de frutas dulcíssimas -, o clima salutar e a amabilidade típica do seu povo mestiço, o Peru é um sertãozão situado a três mil metros acima do mar. Predomina nele uma harmoniosa sucessão de cumes desnudos entremeados de vales que se afunilam em desfiladeiros e se perdem no horizonte, enegrecidos pontos de mira fixados no infinito. Mas é também uma estreita e extensa terra colorida e umedecida pelas águas turquesa e as brumas do Pacífico. Para onde a gente se vira, seja em Trujillo, Pachacamac ou em Cuzco, há sol sobre a amplidão intérmina e um atordoante silêncio fere os ouvidos. Os primeiros versos em que Vespasiano Ramos canta “O Sol do Sertão”, no livro “Cousa Alguma”, servem de modo perfeito para expressar o meu estado de espírito durante a breve estada no Peru, terra, povo e arte que espero revisitar, mais demoradamente. Canta o poeta Caxiense: Que vontade sem fim de andar perdido / Nesta infinita solidão! alheio / À humana dor, ao mísero ganido / Da injúria humana que nos fere o seio!....Eu me deixo ficar, sozinho e mudo, / Para, do alto, mergulhar minh’alma / Na divina harmonia disto tudo!


        Por falar em Vespasiano, finalmente recebi, com carta do poeta Antônio Cândido da Silva, da Academia Rondoniense, as prometidas fotografias do túmulo e a respectiva lápide do poeta caxiense. O sepulcro foi mandado erigir pelo Conselho de Cultura de Rondônia em 1984, em comemoração ao centenário de nascimento do ilustre maranhense falecido em Porto Velho. Na carta, A. Cândido desculpa-se pelo estado de abandono em que se encontra a sepultura, inteiramente tomada pelo mato que cresce em todo o cemitério.  Além de lamentar a falta de respeito da administração municipal para com os mortos, o ilustre amigo promete, indignado, por sua conta, mandar alimpar a área e o sepulcro onde Vespasiano repousa.
 
        Todavia, para que o A. Candido não se sinta tão sozinho em sua indignação, disse-lhe por e-mail, em agradecimento à gentileza, que igual desprezo a Prefeitura de São Luís – Atenas Brasileira (?) - vota às sepulturas de seus mais ilustres filhos, no Cemitério da Quinta do Gavião. Só para se ter uma idéia: o túmulo de Aluísio Azevedo, o mais importante romancista maranhense, um das glórias da ficção nacional, vivia ao abandono, destratado, encardido, com pedras e imagens carunchosas e danificadas, até que de uns quatro anos para cá venho eu custeando a sua limpeza periódica. Do mesmo modo, o túmulo do poeta Sousândrade por muitos anos foi convertido, também pelo abandono, em imundo buraco, um desprezível oco de corujas, sem qualquer identificação,  numa das limosas paredes do mesmo cemitério. A Academia Maranhense tomou a si o preito de honra ao singular poeta e mandou refazer todo o sepulcro restaurando-lhe a dignidade perdida. Pois é, assim é que terminam os grandes vultos maranhenses, quando não têm seus bustos ou estátuas, em praças públicas, roubados ou danificados. O desrespeito das autoridades municipais faz escola. Ou seja, os marginais imitam as autoridades, em tudo por tudo. Portanto, moralmente, os maranhenses, antes de qualquer reclamação, têm mais é que agradecer ao povo de Rondônia a homenagem prestada a Vespasiano Ramos. Porque, aqui, talvez nem mesmo sepultura o poder público lhe teria dado.
        Cruzes!

* Joaquim Itapary - Jornalista, Escritor, membro da Academia Maranhense de Letras e ex-ministro da Cultura, residente em São Luís. jitapary@uol.com.br


BARRA DO CORDA

                       * Olímpio Cruz

Desperta, oh Musa! As pálpebras descerra!
Olha bem alto, sobre as verdes tranças,
Como um sinal de paz e de bonanças,
Alto Cruzeiro em cima de uma serra!

Éminha terra berço.É minha terra!
Cisne banhado pelas águas mansas
Barra do Corda, ninho de esperanças,
Esperanças de amor que amor encerra!

Oh minha terra! Oh rios de águas claras,
De Ofir mimosas pérolas brilhando...
Jóia das jóias, preciosas, raras!

Barra do Corda, flor em dois regaços...
Loura princeza - as glórias decantando,
Entrelaça pordivinos braços!

* Olímpio Cruz - poeta, escritor e indigenista, barra-cordense, já falecido.


O HOMEM QUE RENUNCIOU A ACADEMIA

     SÃO LUÍS, 21 de fevereiro - Nascimento Morais Filho é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e é o titular da Cadeira Nº 37 da Academia Maranhense de Letras, instituição com a qual acabou travando uma briga memorável. O autor de Esfinge do azul rompeu com a Academia quando os seus pares reuniram-se, no dia 7 de junho de 1979, para eleger o ex-governador Pedro Neiva de Santana (1907-1984). Protestei porque Pedro Neiva nunca escreveu uma linha. Reagi, votei contra e nunca mais pus meus pés lá. Dessa sua atitude, Nascimento Morais Filho diz que nunca se arrependeu: Larguei a Academia, sim. É uma Casa que não imortaliza ninguém. Quem tem valor, quem tem talento mesmo, não precisa de Academia, assinala o poeta, lembrando que seu pai foi presidente dessa mesma Academia. Caso raro entre os literatos maranhenses, o autor de Clamor da hora presente faz duras críticas aos intelectuais da moda, como também tem uma avaliação bastante severa de sua obra e de si próprio. Porém ele enche o peito, deixando a modéstia de lado, quando começa a falar de seus próprios livros: Eu sou um escritor internacional. Minhas obras já foram para outros países e meu livro Azulejos, se fosse traduzido em francês ou inglês, seria um best-seller, porque é um livro originalíssimo, que resgata os meus tempos de menino.

     Em Azulejos, o escritor evoca o prédio da Rua Grande – onde funcionou a casa comercial popularmente conhecida como 4 & 400, a loja Lobrás, onde ele foi criado. Nele fala, inclusive, dos bons tempos do Largo do Carmo e da Praça do Panteon, onde está o busto de seu pai, erigido por iniciativa de Guimarães Martins, à época do governo de Matos Carvalho. Filho natural de Francisca da Graça Bogéa, que fora aluna de seu pai, Nascimento Morais Filho foi criado por sua madrasta, a professora Ana Augusta Nascimento de Mo-raes. Foi ela que me criou, desde o dia em que nasci, afirma o poeta, mostrando a foto dela na parede da casa onde mora, no Beco do Couto. Com muito carinho, o poeta diz que se orgulha de ter tido duas mães. Meu pai tinha um defeito terrível: ele gostava muito de mulher.Fundador e presidente, durante muitos anos, do Comitê de Defesa da Ilha de São Luís, Nascimento Morais Filho mantém suas críticas à Academia Maranhense de Letras e lamenta o que considera miséria cultural do Maranhão. A província não imortaliza ninguém. Se o artista ou intelectual ficar aqui, morre abandonado, e sem nenhum reconhecimento.

     Se meu pai ou mesmo Nauro Machado vivessem no Sul do País, seriam, com certeza, nomes de prestígio até mesmo internacional. O autor de Azulejos se orgulha de pertencer a uma geração que teve grandes literatos como Ferreira Gullar, José Chagas, Manoel Caetano Bandeira de Melo, Nauro Machado, Lago Burnett e Erasmo Dias. Para Nascimento Morais, Gonçalves Dias (1823-1864) é o maior poeta do Brasil e um dos maiores do mundo. Só a Canção do Exílio é o bastante. Foi algo que revolucionou a poesia.

     Nascimento Morais Filho se ufana de ter sido o “descobridor” de Maria Firmina dos Reis (1825-1917). Ele diz que descobriu a romancista, por acaso, no ano de 1973, época em que procurava nos jornais antigos da Biblioteca Pública Benedito Leite textos de autores maranhenses sobre o ciclo natalino (Natal, Ano Novo e Reis). Ficou impressionado ao encontrar informações sobre uma mulher que no período da escravidão escrevia poesias. Depois, encontrou informações sobre o romance Úrsula, publicado em 1859 cuja temática é a sociedade brasileira da época. Destaca-se que ela, em seu romance, redigido numa sociedade dominada por senhores de escravos, aponta a dimensão humana do negro, que deixa de ser mera mercadoria, para assumir a figura de gente. Maria Firmina dos Reis foi, portanto, uma negra revolucionária, que no seu romance tirou o negro dos desvãos da senzala, para colocá-lo no salão. Quando aprovada num concurso público, recusou ser carregada num palanquim: Negro não é animal para se andar montado nele!, reagiu ao repelir a regalia.

     Maria Firmina dos Reis foi uma mulher humilde, negra, professora leiga que, mesmo discriminada pela hipocrisia da sociedade maranhense da época, tornou-se, na segunda metade do século XIX, a primeira romancista da Literatura Brasileira e a primeira poeta da Literatura Maranhense. Ela nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825 e, depois de aprovada em primeiro lugar num concurso público para o magistério, foi nomeada para trabalhar em Guimarães, cidade onde passou a morar até a morte. Ela escreveu outras obras como o livro Cantos à Beira-Mar, poesia, o conto A Escrava e Gupeva, romance indianista publicado três vezes nos jornais de São Luís. A segunda edição de Úrsula, um fac-simile do romance original, foi publicada em 1975, ano em que foi erigido, em São Luís, na Praça do Panteon, um busto em homenagem a ela, feito pelo escultor Flory Gama. A edição fac-similar do romance só se tornou possível graças ao escritor, historiador e bibliófilo Horácio de Almeida, que doou o livro ao Governo do Estado. A terceira edição, com prefácio do intelectual negro norte-americano Charles Martin, saiu em 1988, por ocasião da comemoração do centenário da Abolição da Escravatura. A escritora faleceu em Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.

     Entre a vida pessoal, a política, a História, as inquietações e angústias filosóficas brota a obra de Nascimento Morais Filho. Ele confessa que não pôde realizar o sonho de construir um museu pré-histórico, para abrigar as pedras recolhidas durante muitos anos durante suas andanças em cidades do interior do Litoral Maranhense, como fiscal de rendas do Estado. O poeta reconhece que, como intelectual, é e sempre foi um sujeito muito inquieto. O intelectual nunca está acomodado nem satisfeito com coisa.

* Texto extraído de Guesa Errante.


ASSEMBLÉIA HOMENAGEIA NONATO SILVA

     SÃO LUÍS, 05 de Junho - A Assembléia Legislativa, às 11 de hoje, vai outorgar ao professor e jornalista barra-cordense Nonato Silva a Medalha do Mérito Manoel Beckmão, a mais alta condecoração do Lesgislativo maranhense.

     Para prestigiar a solenidade, um grupo de barra-cordenses se deslocou a São Luís e, com certeza, a colônia cordina residente na capital vai comparecer em peso.

     Nonato Silva é o jornalista pioneiro, número um, de Brasília. O autor da proposta sugerida pelo jornalista Nonato Cruz, de homenagem ao professor Nonato Silva é o deputado Rigo Teles. O plenário da Assembléia aprovou a honraria por unanimidade.

* Da Sucursal da Rádio Rio Corda FM, em São Luís.



CINEASTA LANÇA DOCUMENTÁRIO SOBRE SÃO LUÍS

Antonio Júnior - Da Equipe de  O Imparcial
    
    
      Partindo da famosa frase do cineasta Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, o jornalista, e agora roteirista e diretor, Luís Fernando Baima realizou um ousado documentário em DVD intitulado “São Luís do Maranhão”, contando a história da capital maranhense, mostrada em belas imagens e ângulos poucos explorados. Em um pouco mais de 40 minutos, é possível se apaixonar ainda mais por São Luís, revelada de uma maneira singular, com destaque para seus elementos culturais, históricos, arquitetônicos e belezas naturais.  
     O DVD “São Luís do Maranhão” marca a estréia de Luís Fernando Baima como diretor de documentário, algo que sempre o fascinou. Inspirado pela cidade, o jornalista sempre teve vontade de filmar algo sobre São Luís por, segundo ele, ter características peculiares. “Queria contar a história da cidade e do povo, de como se formou esse grande cenário que está todo preservado. São Luís tem uma história fantástica, com um povo único, totalmente diferente dos demais”, justifica Luís Fernando Baima.     
     Com a idéia na cabeça, dedicou-se com afinco para colocar o projeto em prática. A falta de patrocínio, grande entrave para as produções locais, foi a principal barreira. Mesmo assim, o jornalista foi em frente e investiu dinheiro do próprio bolso para bancar o DVD. Adquiriu equipamentos de alta definição (high definition) e que ainda nem estão disponível no Brasil investindo R$ 80 mil. “Minha idéia era coletar o máximo de imagens possível em boa definição, já formando um banco de imagens de São Luís com qualidade HD”, justifica Baima. Como os equipamentos adquiridos são de ponta, não havia profissionais na Ilha que os manuseasse. O jornalista então seguiu o conselho do amigo e fotógrafo Edgar Rocha: que ele mesmo filmasse o documentário.     
     Para escrever o roteiro, Baima fez várias pesquisas sobre São Luís, inclusive na Biblioteca Nacional, onde encontrou fotos raras e curiosidades da cidade, como a explicação para o traçado das ruas estreitas, que foram projetadas dessa forma pelos colonizadores para encurralar os inimigos durante as batalhas. O documentário começa com a fundação da cidade, numa trajetória linear, até chegar aos seus aspectos mais recentes, como a modernização. “O destaque do DVD é a cidade e seu povo, eles são os grandes protagonistas. As pessoas são mostradas como realmente são. Não fiz esse documentário para turistas, mas para o próprio maranhense”, enfatiza Baima, que fundou a Prole Filmes para produzir o trabalho. Ao todo foram 26 horas de filmagens.
DOCUMENTÁRIO TRAZ CENAS SURPREENDENTES
     O DVD “São Luís do Maranhão” mostra cenas pouco exploradas da Ilha, enquadradas em ângulos diferentes. “Gosto das imagens incidentais, da questão humana. Procurei filmar de uma maneira diferente, sem interferir no cotidiano da cidade e das pessoas, por isso, quem assiste ao documentário se surpreende com algumas cenas”, diz o diretor.
     No documentário há espaço para a história das igrejas da cidade, dos túneis subterrâneos, para a cultura popular, suas lendas e muito mais. Não há como não se encantar com as manifestações culturais do povo como tambor-de-crioula, bumba-meu-boi, tambor de mina, entre outros, mostrados em cena. A trilha sonora é também um grande destaque do documentário, assinada por Zé Pretinho, da Madre Deus. O percussionista compôs a trilha em estúdio, instrumento a instrumento, num resultado que merece aplausos. A narração do documentário conta a voz do radialista Oscar Ferreira. As fotos da capa são de Edgar Rocha.      
     E Baima tem colhido bons frutos com o DVD “São Luís do Maranhão”. Já vendeu cerca de 1.800 cópias e teve uma boa aceitação de alunos e professores de várias escolas. “Não fiz o documentário de forma didática, mas tive uma receptividade boa de várias escolas. Eles exibem o trabalho e depois discutem. É algo curioso”, diz.
     Agora, o diretor prepara-se para fazer outros documentários. A intenção é lançar 10 trabalhos em cinco anos. Dois já estão em fase de pré-produção: o primeiro é sobre os Lençóis Maranhenses e o outro intitulado “À Sombra do Estandarte de Maria”, no qual pretende reunir gerações dos anos 50, 60 e 70 do século passado de alunos do colégio Maristas. O DVD “São Luís do Maranhão” pode ser adquirido por R$ 30 em várias lojas da Praia Grande, na Dimapi, nas locadoras 100% Vídeo e Megamil. (AJ)


FONTE DAS PEDRAS: HISTÓRIA E LENDAS...

 
Adalberto Júnior - Da Equipe de O Imparcial

     SÃO LUÍS, 14 de Março - Fonte de água para uns e de estudo para outros, a Fonte das Pedras é, sem dúvidas, um manancial de inspiração e beleza, proporcionadas, principalmente aos artistas sensíveis e transeuntes mais atentos das ruas de São João, do Mocambo e da Inveja. A centenária construção portuguesa está passando por processo de restauração, muito bem vindo por sinal, tendo em vista a importância histórico-cultural-arquitetônica de um dos mais admiráveis cartões postais de São Luís.
     A capital, como é de conhecimento geral, possui várias fontes de água, belas e bem conhecidas, a exemplo das fontes do Ribeirão e do Bispo. Mas, a Fonte das Pedras acumula atributos interessantes, principalmente por ter servido de apoio para a renovação de energias dos soldados sob o comando de Jerônimo de Albuquerque, na antológica batalha que teve como resultado a expulsão dos franceses de São Luís e também, por várias décadas, abastecer as embarcações que, da área conhecida hoje como Portinho, saíam para destinos distantes.
     A recuperação desta obra da arquitetura colonial está sendo capitaneada pelo Instituto Municipal da Paisagem Urbana (Impur), com estimativa de investimento na ordem de R$ 359.772,43, orçamento doado pelo Banco do Brasil (BB). O projeto que também foi elaborado pelo Impur foi aprovado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que segundo a sua superintendente local, Kátia Bogéa, precisa de atenção por parte do poder público. “A Fonte das Pedras pertence à municipalidade. O projeto do Impur foi analisado e aprovado pelo Iphan-MA. A área da fonte tem um problema histórico, relacionado com o sistema de esgoto. Aquela é uma área de aterro e havia um igarapé onde hoje é a vala do Oscar Frota. Precisa de um sistema de drenagem, através de projeto que é caro”, disse.
     De acordo com ela, o prédio da fábrica de tecidos Santa Amélia, localizado na parte traseira da fonte foi tombado isoladamente pelo Iphan e repassado à Universidade Federal do Maranhão que segundo ela, não deu uso às instalações.
     Especialistas locais no segmento de arqueologia que geralmente acompanham obras na área histórica do Centro de São Luís, afirmam que, por estar localizada em um setor baixo do terreno do Centro, o local se caracteriza como sendo de extrema riqueza por depositar resquícios de objetos utilizados pelos moradores, em quase quatro séculos de ocupação.
RECUPERAÇÃO
     O processo de recuperação da Fonte das Pedras prevê melhorias da sua estrutura, urbanização e, principalmente acessibilidade aos portadores de necessidades especiais. De acordo com o projeto do Impur, haverá substituição do piso, mas o novo seguirá o traçado original da construção, ainda com reaproveitamento das pedras de cantaria que foram encontradas soltas pela área.
     As pedras de cantaria serão aproveitadas no piso do acesso principal da fonte que ainda vai contar com a instalação de novos bancos, de mesmo modelo dos anteriores; a criação de áreas de estar e descanso, dentro dos canteiros da fonte; novas lixeiras, semelhante às das praças do Centro; rampas para portadores de necessidades especiais e piso tátil para deficientes visuais; banheiros públicos masculinos, femininos e também para os portadores de necessidades especiais, além de limpeza e restauração dos tanques, das galerias, espelho d’água, carrancas e frontão.
     Com melhor iluminação da fonte e do jardim; ajardinamento e irrigação automatizada, a direção do Impur acredita que a Fonte das Pedras será mais notada e freqüentada pela população.
     As obras foram iniciadas no mês de outubro do ano passado, com previsão para serem concluídas e entregues à comunidade até o final deste mês. Conforme informações da assessoria de comunicação do Impur, foram encontrados vãos durante as obras que, segundo a Fundação Municipal de Patrimônio Histórico (Fumph), podem ser acessos à antiga Fábrica Santa Amélia.
FONTE DE ÁGUA
     A Fonte das Pedras, como todas as outras fontes públicas de São Luís surgiu das nascentes de água naturais, provavelmente bem próximas do local. Sua construção aconteceu após a invasão holandesa, de 1641 a 1644. Os dados históricos dão conta de que Silveira e o Coronel-Engenheiro Pereira do Lago, respectivamente Governador e executor das obras, caracterizaram a Fonte das Pedras tal como conhecemos hoje, com frontão de alvenaria, calçamento, galerias subterrâneas, bicas e carrancas.
     Além do abastecimento da população e dos moradores da área, a Fonte das Pedras teve uma característica importante, sobretudo no fornecimento de água para as embarcações que se locomoviam até às proximidades da fonte, através de um braço de água que passava próximo ao Mercado Central e ao prédio do Oscar Frota, hoje um córrego sem tratamento de esgoto adequado, tendo em face a importância histórica do logradouro.
     A Fonte das Pedras está localizada frontalmente à Rua de São João e entre as ruas do Mocambo e da Inveja. Com a industrialização, a necessidade de uma fonte de água levou à construção da fábrica de tecidos Santa Amélia, ao fundo dos limites da fonte, provavelmente, sobre os nascedouros naturais que abastecem a fonte. Toda a construção expõe o estilo colonial português, em detalhe no portão de entrada, representado por um escudo de bronze.
     A História também conta que a Fonte das Pedras serviu como ponto de recomposição dos soldados comandados por Jerônimo de Albuquerque que lutaram e expulsaram os franceses, em 31 de outubro de 1615. A tropa teria acampado junto à nascente que serviria, anos depois, de suprimento para os holandeses, enquanto estes ocuparam a cidade.

Restauração da Fonte das Pedras

* Substituição do piso, seguindo o traçado original;
* Instalação de novos bancos, com o mesmo modelo anterior;
* Criação de áreas de estar e descanso dentro dos canteiros;
* Novas lixeiras (padrão das praças do Centro);
* Rampas para portadores de necessidades especiais e piso tátil paradeficientes visuais;
* Construção de banheiros públicos (feminino, masculino e para portadores de necessidades especiais);
* Limpeza e restauração dos tanques, galerias, espelho d’água, carrancas e frontão.
* Iluminação da fonte e do jardim;
* Ajardinamento;
* Irrigação automatizada


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